O Ladrão de Almas

Nunca estás seguro. O desastre chega sempre antes de ti. E tu assistes sempre na plateia da frente. De mãos atadas. De boca amarrada. Foste raptado para assistir ao desastre. Pequenos holocaustos a exigirem a tua morte. E, mais cedo do que esperas, o passado não te dá tréguas. Percebes agora porque te chamavam O ladrão de almas. Todas elas voltam, uma a uma, para te confrontar. É o preço mínimo que pagarás. Parece-te justo. Que nada te seja devolvido. Nenhum ladrão merece reembolso. Agora és tu e a tua solidão. Não estás mais seguro. A solidão é o teu maior desastre. Já pensaste no suicídio. Mas nunca tiveste coragem. O suicídio é um acto de coragem, o desejo de antecipar a morte, de adiantar as horas. Qual será afinal a diferença entre ter a vida presa por um fio ou o pescoço por uma corda? Só quem se suicidou poderá falar sobre o suicídio. E só a morte poderá falar sobre ela própria. Parece-te bem que assim seja. Cada coisa no seu lugar.

É interessante: não se pode morrer da vida – morre-se da doença, de homicídio, da tragédia – e no entanto podemos todos viver da morte. Dos outros. Não estás seguro. Nunca estiveste. A morte é outro desastre.
O maior dos desastres. E tu estás agora a voltar a casa. Estás a passar a ponte que te liga ao bairro onde moras. Olhas para baixo e vês uma linha férrea. Parece-te óbvio: se te suicidares ninguém saberá a causa da tua morte (tanto poderias morrer da queda como do atropelamento). Talvez a causa da tua morte gerasse mais mortes. Uma desgraça a atrair outras desgraças. Haveria certamente quem falasse no destino. Quem não acreditasse em escolhas. Suicidares-te seria uma escolha. Como tantas outras que
tomaste. Como no dia em que sentiste a necessidade de abandonar uma alma, por outra alma.

Nunca conseguiste parar. Retiravas tudo o que tinham. Tudo o que podias. Num mundo onde as palavras eram o segredo, a chave, tu eras um poeta dos olhos. Precisavas de enganar os olhos. De iludir a mente. Era preciso começar com jogo das palavras, lançar os corpos, rasgar a pele. Assim, por esta ordem. Uma coisa de cada vez. Só depois a alma. Para alimentares o teu pecado. O pecado precisa de ser alimentado. Não é que morra à fome. Mas não saberás o que fazer com ele se não o alimentares. Não sabes ao certo quantos corpos deixaste desalmados enquanto a claridade jorrava pela janela do teu quarto. Sempre assim, o início e o fim, sempre os mesmos. Roubar uma alma deve ser perturbante, é o que pensas enquanto fumas o teu último cigarro.

Nunca te incomodou o facto de te chamarem de ladrão. Mas, hoje, como todos os ladrões, és um prisioneiro. Do passado. Hoje a tua alma não é mais tua. Hoje és as almas que roubaste. É tarde para precisares de ti. O peso que transportas eleva-te a lugares inóspitos. As vozes confundem-se, atormentam, assombram-te. Não fugirás. Ou vives com isso, ou isso vive contigo. Isso, sim: todo o mal que fizeste. Todo o mal junto. O mal junta-se contra o malvado. Sempre foste um malvado. Um ladrão malvado. Nunca passaste disso. De nada te vale ergueres a bandeira. Render não é a palavra adequada quando se fala em dívidas. E tu tens várias. Chamemos as coisas pelo nome: és um monstro. Um monstro cheio de pecados e promessas. Promessas por cumprir. Promessas que jamais cumprirás. À noite é pior. A noite não te traz coisas boas – pelo menos memórias. Os fantasmas que criaste (sim, os que tu criaste) prolongam a noite. As noites são uma aflição. Chegam mais vozes. Sentes dificuldade em respirar. O ar que respiras é denso. Pesado como a tua consciência. Tem sido assim todas as noites. Um sopro ao ouvido. Um sufoco no coração. A ponte a chamar por ti. Vinte metros. Vinte metros de altura chegarão. Não será doloroso. Não haverá remorsos. Apenas destroços.

A morte pode não ser solução, simplesmente pelo facto de não resolver nenhum dos teus problemas (a menos que o teu único problema seja viver). Mas, enquanto morte, o seu poder aniquilará todas as sentenças que qualquer vida nos dita. A remição de todos os pecados. Uma morte por várias mortes. Quer mates uma, duas ou vinte pessoas, a tua morte pagará todas as dívidas. E não importa se agora te roubaram a alma. Ou quantas roubaste.

Voltarás, da mesma maneira que o passado irrompe no presente.