O jantar

Aquele era o primeiro jantar, talvez o primeiro de muitos. As pernas tremiam, as borboletas não paravam diante do risotto dela.

No meio de tanta ansiedade a única coisa que que sobressaia era o brilho do olhar, os cachos perfeitamente delineados. Tão perfeitos que qualquer um que saísse do sitio seria arte abstracta.

E o sorriso! Esse fazia esquecer cada bago de arbóreo delicadamente colocado no fundo do prato branco dela.

Buscava incessantemente palavras e textos, armas eruditas para acabar com o constrangimento do silêncio, que ao mesmo tempo era melodioso. Pois seu sorriso era como notas musicais tocando a mais bela música numa partitura.

Diante de mim tinha um tesouro, a mesma beleza do ébano sobre o marfim.
Os primeiros tragos de vinho, um alentejano qualquer, começavam a fazer efeito.

A erudição passava, a descontracção sobrepunha-se, as perguntas fluíam, como se de um reencontro se tratasse, mesmo sendo só o primeiro jantar.

Já fazia algum tempo que o relógio não tinha sentido algum, os segundos corriam e eu só os queria parar.

Eu confesso, cheguei a perder-me nos teus lábios e nos seus trejeitos de desejo.

PORRafael Barata
Partilhar é cuidar!