O Desabafo

Foi a vida que me tornou assim. Rude, sem coração. Eu nem tempo tenho de pensar no tom que vou usar para dizer seja o que for. Eu sei que estou má a falar. Que falo sem cuidado nenhum. Mas eu só reparo depois de ter falado. Só depois. A vida é a culpada. A vida que eu tenho. A ventura (má sorte) que me acompanha sempre para todo o lado. É raro eu sorrir, e se riu é por coisas estúpidas.

Eu preciso de chorar, o choro é a minha maneira de desabafar. Mas eu não consigo. Aprendi de tal maneira a não soltar uma lágrima, que agora quando preciso, não consigo. E preciso de um ombro amigo ao meu lado para me limpar as lágrimas. Não preciso de alguém que me insulte. Que me aponte o dedo. Que opine. Eu preciso de alguém que goste de mim. Que me console. Que encoste a minha cabeça no seu peito, passe a mão nos meus cabelos e diga: “Vai ficar tudo bem. Calma, eu estou aqui.”. Que faça isso sempre que eu chorar. Mas não, à minha volta só existe gente que ainda me goza por eu estar a chorar. Mal elas sabem o quanto me custa soltar aquelas poucas gotas de água salgada para desabafar todo o mal que está dentro de mim. Elas não sabem de nada.

Elas não sabem o quanto custa ouvir alguém dizer que esperava outra pessoa de mim. Elas não sabem o quanto dói amar alguém e saber que esse alguém não gosta de mim, não me quer, simplesmente não me pertence. Elas não sabem o que é ouvir uma fofoca desagradável sobre nós próprios e ter de engolir a mágoa e fazer de conta que não ouvimos nada para não piorar as coisas. Elas não sabem o que é ser rejeitada por pessoas que amamos. Elas não sabem o que é ser alguém que a sociedade não aceita. Alguém que para a sociedade é um pecado. Elas simplesmente não sabem. E por isso julgam que tenho uma vida boa, que me lamento por nada.

O meu choro não é um lamento, é um desabafo. Mas eu às vezes me pergunto porquê de a minha vida ser assim. Me pergunto se a minha vida algum dia melhorará. Me pergunto se eu realmente mereço isso. Me pergunto o que fizera para merecer isso. Me pergunto se eu nasci por engano. Me pergunto como eu posso mudar isso. Me pergunto se eu nunca deveria ter nascido. E eu sinceramente, às vezes acho que não deveria ter nascido. Que vim ao mundo para ver os outros com uma vida feliz. Para arruinar a vida dos outros. Para Estorvar a vida dos outros.

Sou só mais uma alma insignificante. Uma alma sofredora. Uma alma miserável. Uma alma confusa. Confusa porque não entende o porquê. Não entende o porquê de haver um modelo humano. Não entendo o porquê de a vida não ter apenas algumas coisas complicadas, mas muitas. Não entende. E ainda por cima confunde as outras pessoas. Confundo-as porque elas não entendem estes meus desabafos. Esta minha tristeza. Esta minha dificuldade em aceitar esta minha miséria de vida. O meu desabafo.

O meu desabafo é o choro. Fechar os olhos e deixar as lágrimas escorregarem pela face. Chorar por muito tempo. Por umas longas horas. Soltar todo o sal. Todo o mal em mim. Deixa-lo fluir. Eu sei que nenhuma lágrima derramada fará a diferença. Que nenhuma lágrima fará com que eu seja bem entendida. Que nenhuma lágrima fará eu ser aceite pela humanidade, tal como eu sou.

Lamento. Lamento ter passado sem querer uma impressão que não a real. Lamento ser quem não querem nem pintada de ouro nas vossas vidas. Lamento. Lamento participar nas vossas queridas vidas. Lamento. Lamento eu ser um erro. Lamento ser uma aberração. Lamento ser um pecado para vocês.

Desabafo. Desabafo para expulsar as minhas más energias, que só fazem engordar o meu mau humor. A minha raiva. A minha fúria. O meu ódio. Eu queria. Ai, como eu queria. Eu queria sorrir a toda a hora. Trocar o chôro pela glória.

Eu queria ser melhor. Eu queria ser quem eles querem que eu seja. Eu tento esconder todos os meus pontos fracos. Todas as coisas que eles rejeitarão. E como? Como eu contaria? Eles reagiriam muito mal. Eu não posso sair do armário. Não posso. Terei de viver aqui para sempre. Eternamente só. Sem aquele peito amigo. Sem outro coração a bater ao meu lado. Sem nada.

Porque eu não sou nada.