O amor precisa de tempo

Tentei pensar numa única música que me lembrasse você, mas descobri que a trilha sonora de nossa vida é vasta demais _ das melodias do Palavra Cantada para crianças às batidas de David Guetta pra fase de corridas; da trilha de Saltimbancos a Coldplay, da canção de abertura de Pokémon ao pop rock dos anos 90.

Também não temos um único longa, como os casais costumam ter. Gostaria de dizer que adoramos clássicos em preto e branco, ou que “Birdman” não sai do nosso DVD; mas a verdade é que nossas sessões de cinema ficaram reduzidas às animações da Disney Pixar, e a tevê lá de casa tem predileção por seriados com gente perdida em uma ilha. Gostamos de “O segredo de seus olhos” e nos divertimos com “Lisbela e o Prisioneiro”, mas o que seria de nós sem os travesseiros que compartilhamos no tapete da sala ou das pipocas que se perderam nos vãos do sofá?

O amor é isso: um amontoado de afinidades que se alinham com gosto de café na cama e cheiro de bolo de laranja no fim de semana; melodia de Djavan declamando “meu bem querer” enquanto a trilha dos Los Hermanos que você gravou no meu ipod não sai da minha cabeça; rumos de nossas vidas que se misturam na poeira do caminho e o registro da última viagem onde lhe apresentei a rua das férias de minha infância; mãos dadas na travessia de nossos ideais e a fase em que temos um filho, compramos uma casa ou trocamos o primeiro carro. A descoberta de que não temos uma única música em comum mas aprendemos a comer sashimi juntos, manuseando o hashi com cuidado pra não dar bandeira da precariedade de nossos movimentos.

Tem gente que gosta de pão molhado no leite, outros preferem pizza fria no café da manhã. Com você aprendi a gostar de café amargo, canela em pó e vinho tinto no jantar. A usar protetor solar, tomar vitamina D e deixar de lado os pequenos dramas do dia a dia. A deixar-me ser conduzida numa dança de passos firmes e vagarosos, sem receio de cair e machucar. A confiar no tempo que alcançamos juntos, apesar de tudo que passamos juntos.

O amor precisa de tempo. De compassos longos e olhos amorosos. De recuperação rápida quando as mãos se soltam por impulso, fadiga ou mágoa passageira. De ventilação certeira quando os caminhos desembocam numa rua sem saída. De doçura quando a saliva amarga nossas certezas e nos convida a reagir de um novo jeito aos dias que virão.

Não temos uma única música, mas já tomamos chuva juntos numa tarde em Ubatuba e pisamos fundo nas poças d’água num impulso quase infantil. Perdoamos erros pequenos ou grandiosos e aprendemos que a recuperação do amor, que se transformou numa porcelana lascada, une mais que qualquer cadeado numa ponte em Paris. Não escolhemos um único filme, mas os vapores da cozinha onde você magicamente prepara a feijoada,o bacalhau e a moqueca contam mais histórias que “Tomates verdes fritos” e carregam mais sabor que “Como água para chocolate”.

Neste Dia dos Namorados queria lhe dedicar uma música e eleger um filme para chamar de “nosso”. Mas sei que vamos esquecer nossos temas durante a reprise de “Um lugar chamado Nothing Hill” e na deliciosa repetição da abertura de Pokémon, em japonês, nos nossos conhecidos trajetos diários.

Então fica a lembrança de momentos que são únicos para nós dois. A hora em que nosso pequeno dorme e descanso no seu braço mais um dia vencido. O sorriso com que me recebe todas as noites e me ajuda a tirar as bolsas do carro. A maneira como nos olhamos enquanto lhe ensino baixar músicas na internet. O jeito como decidimos todos os dias a permanecer mais um dia.

Nem uma música. Todo amor do mundo. Nem um filme. Todos os desejos de que seja pra sempre. A você. A nós…


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