O Abraço


Foi um abraço diferente, foi sentido, existia saudade naquele abraço, provocado pela distância e pelo tempo.

O sofá formava a letra L, ela sentou-se numa ponta e eu noutra. Enquanto ela fazia uma refeição rápida eu não conseguia deixar de observá-la, o brilho característico do olhar dela, a forma como os lábios se mexiam enquanto mastigava, parando somente para sorrir enquanto eu debitava conversa.

Finda a refeição apressei-me a abraçá-la, tentar recuperar o tempo sem poder tocar-lhe durante os dias exasperantes que se mostraram ser mais do que os dedos das mãos.

A noite mostrava-se veloz escasseando o tempo, e os olhos dela semicerrados lacrimejados pelo sono eram o sinal, a indicação que o meu tempo chegara ao fim.

Enquanto me despedia dela, esperando um sorriso final era assombrado pelo caminho que teria que percorrer sozinho, pelos ventos frios cortantes dignos de uma zona polar ártica.

O sorriso saiu, mas talvez forçado, pois enquanto sorria os olhos fitavam o chão, e as nossas respirações não estavam em harmonia.

Procurei o ultimo abraço, oferecendo-lhe um beijo na testa em sinal de respeito, mas sempre com a esperança de mais.

Era um adeus, mais um até amanhã, mais uma noite que ainda não ia acordar com ela a meu lado.

O caminho dos plátanos até casa faz-me passar pela estátua mais famosa de Rodin, pois apesar de não estar sentado, deambulo pensativo, como um poeta cogitando se eu só mostro as razões e não apresento os factos… O amor é incompreensível quando o tentamos compreender.