Nunca se morre por inteiro…

O meu avô morreu. Podia ser só isto: morreu – e acabou.

Mas o certo é que nunca se morre por inteiro. Lá que o coração pare e o corpo se desfaça, as pessoas não morrem por inteiro. Para onde vão – não sei – , o que fazem – desconheço -, mas o que é certo é que nos continuam a assaltar em imagens intermitentes, roubando lágrimas, devolvendo sorrisos. Mesmo aquando a morte as pessoas continuarão a existir em pequenas fracções de memória.

Lembro-me então do meu avô: comerciante de profissão, pai de sete filhos, conhecedor de Portugal, sempre convicto que a morte não é para ele. Dizia que a postura e a imagem, mesmo quando distorcida da realidade, era o que nos safava na vida.

Dono de toda a sua sabedoria, percorria pelo pais fora a oportunidade de negócio. Era um homem de contas, adormecia no carro com a boina à cabeça e de caderno ao volante, debaixo de um azinheira. Resistiu a dois acidentes vasculares cerebrais, mas foi o cancro que lhe ditou os últimos dias de vida.

Sempre o conheci com os seus passos vagarosos sobre a calçada que me viu crescer. Dizem que o descanso eterno existe, mas para o meu avô não, o meu avô, onde quer que esteja, não descansa.

Hoje, tudo o que sobrou do meu avô, aflige-me. Não me refiro à parte dele que morreu, mas sim ao que dele vive em mim. Não vou chorar o que não volta, choro apenas o que não se liberta, choro as palavras incutidas, o sorriso desvanecido, os gestos com as mãos. Sinto que nunca se morre sozinho, que parte de mim também morreu. É irremediável. Se o que nos rodeia nos preenche, então a ausência também nos mata.

Enquanto houver memória, nunca se morre por inteiro.


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