Nunca me senti íntima de mim mesma

Deposito a chávena de café na secretária e sento-me em frente a esta.

A aurora rompeu e pela janela admiro as rosas preguiçosas que desabrocham com o propósito de absorver a claridade.

No parapeito pousa um passarinho que se vangloria ao cantar a sua melodia.

Eu apenas penso…

Vejo pessoas passarem na berma da estrada, soltam alegres “bom-dia” e gesticulam freneticamente.

As crianças correm, riem e cansadas deitam-se no pátio coberto de relva, que ingénuas são.

Algo dentro de mim ordena-me que sorria, mas, a minha face não o permite, não depois das atrocidades a que me submeti.

Levanto-me lentamente e arrasto os pés até ao espelho.

Quem sou eu?

Esta pergunta tolda o meu pensamento e não desejo a resposta. Nunca me senti íntima de mim mesma. A minha alma descansa num corpo que não lhe pertence.

Não conheço a rapariga que sorri refletida no espelho, talvez porque somente não a queira conhecer.

Deixo-me suspirar e volto ao local outrora ocupado.

Recosto-me na cadeira e permito que o calor da chávena me aqueça um pouco e que o aroma amargo do café me invada as narinas.

Olho pela janela, vejo rosas, pássaros, pessoas e crianças… Se os meus olhos preenchem os seus requisitos com todas essas imagens porque não permitem que eu me descubra a mim própria?

Envolta em pensamentos, um outro me paralisa… Não estou a fazer da minha vida o que quero dela.

PORSofia Sousa
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