Nunca me esqueci de ti!

Hoje é mais um dia a tentar fazer um esforço para acordar, para te voltar a procurar, para te encontrar e te ter de volta. É mais um dia de luta e de busca por um sentido para a minha vida.

Não sei mais o que fazer, filha. Não sei como me reerguer, sinto que não fui uma boa, mãe. Não fui uma boa mulher, nem tão pouco uma distinta guerreira. Fui uma fraca e deixei-me vencer pelo medo. Perdendo-te. Anseio como a própria vida poder sentir que esta perda não é definitiva e eterna mas apenas fruto de um erro temporário e impensado.

Fazes-me falta. Faz-me falta, o sorriso que me fez rejuvenescer quando te vi pela primeira vez. Faz-me falta, o toque único da tua mão pequena, tão pequena que era capaz de caber no mundo inteiro. Faz-me falta ter alguém para cuidar e para mimar, faz-me falta a vida que tu trazias à minha vida, a felicidade de que eu era feita. A parte de mim que partiu contigo e que fazia parte de nós.
Falta-me o sossego de saber se estás bem, se és feliz, se tens saudades minhas, o que é feito de ti.

Não consigo esquecer o dia em que – inesperadamente – te perdi; como se perde um grande pedaço do coração, sem o conseguir agarrar, da forma mais inóspita que se possa imaginar. O relógio batia as cinco horas da tarde e eu esperava ansiosamente que chegasses a casa da escola, já tinha posto a mesa da cozinha com a toalha colorida que tu tanto gostavas. Já tinha aquecido o teu leite com chocolate na caneca que tu mais gostavas: que tinha os teus desenhos animados favoritos. E feito as tuas torradas preferidas: com compota de amora, que te pintava os lábios todos de negro, doces como sempre foste.
Sentei-me no lugar mais à esquerda da mesa, que sempre foi o meu lugar pronta para te ver entrar a correr em casa, trazendo contigo todo o desassossego que um filho traz à vida dos seus pais. Pronta para ouvir as tuas alegrias, as tuas conquistas, as tuas brincadeiras e travessuras; mas esse momento nunca chegou.

As horas foram passando, o silêncio foi-se instalando e nada de ti. Anoiteceu. Saí esbaforida de casa, perdida no tempo e no espaço e longe estava de imaginar que me esperava o pior dos pesadelos que já dura há quase cinco anos.

Na escola foi-me dito que o teu pai te tinha ido buscar pela hora do almoço e que tu nunca mais tinhas voltado, fiquei desesperada, tentei ligar, mas não obtive resposta. Peguei no carro sem ter um trajecto definido e fui por aí sem destino, à tua procura. Sem sucesso.

Foram horas, dias, semanas e meses, sem dormir, sem conseguir parar de chorar, sem entender o que estava a acontecer, sem conseguir acreditar e aceitar que o teu pai. O teu próprio pai te tinha levado para longe de mim. Te tinha roubado como se fosses um simples objecto sobre o qual se pode discutir a propriedade. Foram tempos infinitos de buscas sempre infrutíferas, até a tua perda se tornar uma dor aceitável, ainda que insustentável e irreversível.

A minha vida mudou para sempre, filha. Nunca mais fui a mesma pessoa. Nunca te esqueci, todos os dias continuo à procura da filha que me roubaram na fase mais feliz da minha vida. Decoro cada fotografia tua, imagino em sonhos, como és, os teus traços, a cor dos teus olhos, a suavidade da tua pele. Se terás traços meus, se te lembrarás de mim. Divago por aí muitas vezes ainda há procura de um simples sinal teu, é um dos meus maiores sonhos, que voltes. Que a tua presença seja uma realidade, ainda não o concretizei, mas também ainda não parei de lutar por ele.

Muitas vezes dou por mim a pensar se devo ou não julgar a atitude do teu pai, por vezes sinto que poderá ter sido uma atitude de amor, outras vezes esse amor incondicional que sinto por ti faz-me pensar que essa mesma atitude nunca poderá ser amor.

Estar longe de ti, mostra o meu lado mais frágil, faz-me vacilar a cada segundo. Preciso de ti. Preciso que voltes. Volta!

E a campainha toca. Abro a porta calmamente e mais uma vez sem quaisquer expectativas…

Mãe, eu estou aqui!

Eras tu. Corro para ti, abraçamo-nos, com as lágrimas de emoção a marcarem o momento. O tempo pára. E eu renasço.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
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