No mergulhar da noite…

Era capaz de voltar atrás, e fazer-te uma vénia, devia ser assim que deveríamos fazer quando entrávamos nos sonhos, preveniríamos os demais pesadelos. Apreciar-te-ia de longe, contaria uma história, ao acaso, só para te ouvir mais um pouco, nem que fosse para analisar essa voz rouca, um conjunto de cordas vocais cansadas, um timbre sereno, umas quantas, palavras ao acaso, que jogavam com as emoções, como se jogam cartas ao Tejo.

Era profunda, a ideia que tinhas das profundezas da vida, como se fossemos um aquário, como se vivêssemos, mergulhados em dívidas emocionais, como se a política nos salvasse de conhecer o abismo. Achavas o mundo, uma regra de três simples, onde focavas, os aspectos indivisíveis, onde abraçavas, a ideia de não querer ser diferente.

Como se saltasses à corda com o mundo, como se um tropeçar, pudesse custar, uma insípida lágrima. Eu ouvia-te, deixando as minhas emoções da responsabilidade do vento, entre cada lágrima, via as tuas vogais e as tuas consoantes como uma lâmpada de sentidos.

Irremediavelmente entre cada pausa, que fazias … eu tremia, como se só , depois de as ouvir é que as palavras escolhiam o seu caminho , ecoando , na minha cabeça . Vibrando o meu corpo, visitando, a emoção exterior através da lenda à média luz. Fundamentava, que há técnicas, para abraçar a existência, por exemplo , ensiná-la a nadar , entre cartas de amor e vogais por acabar , interrompidas , por soluços premeditados .

Via-me encruzilhada, entre lágrimas, entre ventos , entre uma robusta paisagem , e o ponto de fuga do meu olhar…o teu . Fazia sentido, falares sem te olhar, porque te iria descobrir mais além , e é aí que está o fascinante , levar as tuas palavras , além mar , e lá , de mãos dadas com elas . Lá longe , olhar-te-ia , vendo entre lençóis de devaneios , um homem , com os mesmos medos que eu , alguém tenso ao falar na primeira pessoa .

Sabia que tinhas planos , para me embalar , sem fraquejar , mas eu queria ver mais de ti , e menos da possibilidade , de me cruzar amanhã com a vida . Acho que estavas tão alcoolizado, de emoções, que deitadas estavam, sobre os gestos dos teus braços , que intensamente guiavam o teu corpo . Estavas sóbrio de ti, e isso assustava-me, o facto de não dizeres um parágrafo sobre ti….

Gaguejarias, se te perguntasse onde estavas, no meio das vírgulas , onde paraste , como se o teu pensamento tivesse sido atropelado , por um barulho , interior , aquele que eu não ouvia , aquele que por vezes tentava prever . Sem sombra de dúvidas , haveria uma parte da madrugada guardada , para mim , foi assim que guiaste o tempo , como se para mim deixasses os aplausos .

Saberia , que era difícil , adivinhar , o que te cativava , mas antes de tudo , era eu ali , a rapariga que gosta dos cheiros da terra , a rapariga que roda nos perfumes das estações .
Memorizarias , todos os pontos de fuga que davam ao teu olhar , porque seriam os segundos em que se prosseguia uma transparência verbal , uma prosa desidratada e sonhos de criança , na ascensão , da idade emocional da qual nunca soube ao certo se existiria .

Sempre quis narrar , a minha vida , num momento intenso , ser só eu , gritar que sustenho , noites de saudade, que muitas vezes pedi , para ver a lua , mas as minhas lágrimas chegaram , a desfocá-la. Que ainda tenho medo do escuro , sobretudo quando tenho a luz acesa , porque por vezes tenho memórias maiores , que a minha respiração … que por vezes , prefiro sair à rua , sobretudo à chuva, sem destino , procurando o que já me tiraram .

Maior parte das vezes ninguém, ouviu o que tinha para dizer, a minha voz nunca se impôs no silêncio , nem nunca tive alento , para amanhã começar . Ponderava ouvir-te , parar no momento certo e fazer-me perguntas, porque antes de perguntar a outro olhar , a minha própria penumbra visual tinha de ter as respostas . Ponderei fazê-lo , admito que sim …ganhar , que bom sabor teria a palavra se interiormente existisse .

Pedi-te outra linha, para poder revolucionar, as rasuras daquela noite. Disse-te que há noites em que se nós quiséssemos emocionar, teríamos de misturar os momentos e os sentidos, levando-os a uma iminente confusão para depois nos lembrarmos eles na intensidade do silêncio .

E foi isso que fiz todo este tempo , em que corri para mim , e que tive a certeza que ainda vive alguém dentro de mim , e foi este arrasador silêncio que alimentou , as forças , que afogaram receios . Foi uma noite , foi um papel químico de um capítulo , dos improvisos da vida. Amanhã , estaríamos a recriminar , os bagos de ar que engolimos , mas pelo contrário , precisávamos deles , para perceber , que tudo o que constrói na vida , começa na respiração.

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