Nas Águas Gélidas Do Teu Amor!

Lembras-te? Quando a maré ficava cheia eu remava e tu abandonavas o barco, percebi que sozinha não tenho como enfrentar a maré e desta vez deixei o barco à deriva. Mergulhei o mar revolto até conseguir alcançar terra firme. Não hesitei. Não olhei para trás, simplesmente mergulhei. Alcancei.

Quem diria que um dia a menina de vidro teria força para enfrentar as ondas raivosas deste mar agitado que foi o nosso amor?

Escutei os teus gritos de socorro por entre as águas geladas, escutei os teus pedidos de perdão em meio à fúria deste turbilhão de sentimentos. Foi quando abandonei o barco em alto-mar que percebi que tu nunca soubeste nadar, tu precisavas de alguém, precisavas de mim, precisavas de algo que te agarrasse e te ajudasse a alcançar terra firme, algo que não te deixasse afundar. Eu escutei-te, contudo deixei-te ficar.

Nunca quis desistir de nós, nunca quis desistir do nosso barco, mas tu não me deste outra opção, tu humilhaste e magoaste este coração e ele queria paz, ele só me pedia paz. Então eu presenteei-o com a paz de um amor tranquilo, a mesma que ele sempre me pediu, presenteei-o com o melhor de mim, o meu amor-próprio.

Estou agora em terra firme e vejo-te a acenar cada vez mais distante, os teus chamados já não são audíveis, estás sozinho!

Mas não era isso que querias? Não era esse o motivo que te levava a fugir à maré? Então, porque choras, porque gritas e imploras? Estás onde sempre quiseste estar, esqueceste-te porém de que sem barco e sem mim não tens como navegar.

Vou pegar esta carta e colocá-la dentro de uma garrafa, vou jogá-la nesse mar imenso, quem sabe a encontres talvez e possas ler tudo aquilo que eu nunca fui capaz de te dizer, isto se o mar ainda não te tiver engolido para as suas profundezas, isto se conseguiste sobreviver ao furacão que assolou esse lugar depois que te deixei ficar.

Aqui da praia, sinto a calmaria das águas beijarem-me os pés, enquanto a brisa suave desta tarde de primavera acaricia o meu corpo. Sinto os raios de sol envolverem-me e devolverem-me a paz interior.

Posso levantar e voar como uma andorinha, bela, solta e sozinha, mas minha. Posso novamente ver o mundo ao meu redor e agradecer aos céus pela coragem que me deram para enfrentar aquele mar furioso. Posso amar de novo assim como amam as crianças, sem medo, sem rancor, apenas pureza e paz no coração.

Pela primeira vez sinto amor em mim e sinto-me feliz, não sei se encontrei o caminho certo ou se me tornei eu a pessoa certa. Mas se esta carta chegar às tuas mãos espero que te sintas feliz por saberes que fui embora a sorrir, espero que tenhas orgulho em ti que com tantas inconsequências fizeste de mim a mulher forte que hoje sou. E se esta carta se perder nas águas e tu te perderes também, guarda na memória a certeza de que te amei como ninguém, mas vou amar de novo outro alguém.

PORLetícia Brito
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