Não sou um anjo, mas visto uma farda branca!

Dizem que quem mais teme a morte escolhe testar a vida. Eu não, eu escolhi estar entre a vida e a morte. Já vi a vida de inúmeras maneiras, sem dúvida umas mais dignas que outras, outras mais marcantes e muitas outras que nunca vou esquecer.

Escolhi não julgar, não importa em que se crê quando precisam de mim, respeito cada crença como se fosse minha. Não me cabe a mim fazer de júri nesta vida em que sem abrigos são ignorados, inocentes estão presos e criminosos caminham entre nós.

Não sou um anjo, mas visto uma farda branca, com tanto orgulho que paro sempre para enxergar ao espelho o reflexo da “gente que cuida de gente” e sorrio.

Há dias em que questionamos tudo, em que não podemos compreender porquê, em que as coisas não fazem sentido, em que queremos dar mais do que podemos. Há dias em que temos que ser mais fortes que tudo, porque não é fácil dar as más noticias, não é fácil conhecer alguém no seu pior, na sua maior vulnerabilidade, há dias em que temos que conseguir, temos que ser mais por quem naquele momento não o consegue ser.

Por vezes descarregam em nós a sua frustração, os seus medos, a sua raiva. Quem sou eu para os culpar? Eu própria gostava que houvesse alguém para culpar. Não importa, não importa porque não é comigo, sei que não o fazem por mal, mas também eles não controlam a situação.

Não pensem que somos imunes ou insensíveis. Até hoje sempre mantive a postura quando era preciso, mas dois passos para o corredor e os meus ombros pesam mais que o corpo todo, não consigo conter as lágrimas, várias vezes corri para a casa de banho, enjoada, com um sentimento inabalável de injustiça, e pior, de impotência. Chorei várias vezes, perdi o apetite e até custou mais a adormecer. Mas no dia a seguir é um novo dia, uma nova vida para cuidar.

Várias vezes senti a morte rondar aquele quarto, a frieza que nem os raios de sol que penetram a janela aquecem, a ausência de humanidade. A orquestra de bips, e o tic tac entre cada intervenção e cada cuidado.

Tantas outras vi corações inquietos, a transbordar amor e preocupação, a contagiar os que os rodeiam, mesmo quando mal em forças para si próprios. Testemunhei cabeças teimosas darem o braço a torcer, corações frios quebrar anos de recalcamento de emoções. Senti famílias serem um, um só para quem mais precisa.

Vaguei-o de noite pelos corredores escuros e silenciosos, a ausência de vida nos serviços quando tudo descansa, dá-me tranquilidade saber que dormem, que tem algum conforto. Afinal é um excelente sinal. Não tenho medo, não tenho porque já vi mais do que alguma vez imaginei e nem por um segundo pensei virar costas.

Desde que comecei que tudo o que aprendo não chega, quero saber mais, quero poder fazer a diferença, estar no sítio certo à hora certa e saber o que fazer. Quero antecipar aos mais pequenos sinais, quero assimilar rápido e decidir como agir.

Sei porque o sinto, sei que aqui sou feliz. Entre a vida e a morte. Não escolho quem vai ou quem fica, mas escolho dar a todos o melhor de mim, os melhor cuidados e tornar cada momento mais apaziguado desse sofrimento que carregam. E vou talvez ser sempre assim.

PORMaggie
FONTEDayDreaming
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