Não te vivi como te devia ter vivido.


Mais um ano de ti, mais um ano de nós. Mais um ano em que me arrastei diariamente para me manter forte e inabalável sem o ser. Mais um ano em cumpri o que aparentemente é ser boa mãe sem nunca me sentir a altura dessa função. Mais um ano em que te amei incondicionalmente sem sentir que isso era o suficiente. Quem nos vê felizes não sabe o que sofri nem imagina a luta que tenho travado dentro de mim ao longo destes anos. Quem nos vê de fora não imagina pelo que passámos juntos, não percebe que foi preciso muito esforço e empenho para nos ajustarmos um ao outro e crescermos enquanto mãe e filho.

Sempre sonhei em ser mãe e fiz questão de te planear e aguardar pelo tempo necessário mas precipitei-me ainda assim. Não tinha noção até de ter nos meus braços que não sabia o que era amar-me, não tinha noção de que não saber amar-me me impedia de te amar. Não consegui prever nem por um momento que não me fosse apaixonar por ti naquele primeiro olhar. Não conseguia acreditar enquanto chorávamos desalmadamente, só os dois, que a maternidade podia ser tão dolorosa, tão sofrida. Não conseguia aceitar que morria de medo de ti e que não fazia ideia de como te fazer parar de chorar, não fazia ideia como seria amar-te.

Não que sirva de desculpa mas termos ficado só os dois nesse preciso momento não ajudou. Ter perdido a pessoa que mais amava no momento em que te ganhei a ti foi um golpe duro. O que já era de si difícil ficou ainda mais difícil. Foi como se me dissessem que não podia ter a felicidade na sua plenitude para não abusar da sorte que era ter-te na minha vida agora. Foi tão confuso estar contigo sem estar, viver contigo sem sentir que estava a viver, tratar de ti sem ter noção que o estava a fazer. Uma das minhas maiores mágoas é ter reprimido memórias desses tempos. Não me lembro porque o dever de não te falhar entorpeceu-me a consciência e aliviou a dor o suficiente para conseguir ser funcional para ti.

Hoje passado mais um ano de ti, o orgulho de ti, de mim e de nós é enorme. Há muito por conquistar, muito em que trabalhar mas a nossa felicidade é genuína e o nosso amor é inigualável. Lutarei até ao meu último dia contigo, reinventar-me-ei dia após dia se for necessário, chorarei rios de lágrimas se assim tiver que ser mas nunca te faltarei. Não nasci mãe nem me tornei numa só porque te vi nascer. Não fui uma mãe babada nem te exibi para o mundo como seria suposto se é que é suposto. Não sinto vergonha em assumir nem culpa por ter precisado de tempo para aprender a ser e a sentir. Sou para ti o que mais ninguém foi, amo-te como jamais alguém amará.

Não te vivi como te devia ter vivido porque simplesmente não conseguia. Um dia explico-te.