Não se amam as ausências…

-Amo-te
Silêncio.
-Entendes o que quero dizer?
Indagações mentais.
-Amo-te, neste momento.
Agora percebes.
O amor floresce em cada momento. Não é o mesmo amor que nos acompanha em vários momentos. Amamos no momento. Passado o momento não amamos mais, a não ser as memórias que ficaram desse momento.
-Amo-te, neste momento
Neste momento em que me deixo envolver pelo calor dos teus braços e em que te beijo apaixonadamente.
-Amo-te

Amanhã já não te vou amar. Daqui a uma hora já não te hei de amar se já não estiveres comigo. Não podemos amar ausências. Não amamos as pessoas quando elas não estão connosco. Amamos cara a cara. Não amamos as pessoas pelas mensagens que nos enviam, amamos o sorriso que permitem o nosso rosto estampar, a sensação de felicidade que provocam em nós.
-Amo-te tanto!
Amamos intensamente, com toda a força, com toda a dedicação, porque o amor nunca esgota, e quanto mais se exercita mais se tem. Amamos no momento. Depois do momento, só amamos as memórias. E só amamos as memórias quando nos lembramos delas. Não amamos todas as memórias ao mesmo tempo porque não pensamos em todas ao mesmo tempo. Amamos e desamamos conforme o contexto.
Amamos porque somos humanos e temos esta capacidade única de amar.
Temos, porém, que perceber que o amor não é como nos ensinaram os contos de fadas. O amor não é um “para sempre”, o amor é momentâneo por mais reles que possa soar esta afirmação.

Não nos sentimos sempre da mesma forma. Por vezes, sentimo-nos felizes, noutras vezes, sentimo-nos tristes. Nenhuma felicidade dura sempre, nenhuma tristeza é eterna, o mesmo acontece com o amor. Sentimo-nos amantes durante alguns momentos. Noutros momentos, existirão outras sensações para saborear. Por vezes, misturamos algumas. Tudo bem. Um misto de sentimentos nunca matou ninguém (penso eu).
-Amo-te, ok?
A única opção é assentir. O amor dá-se e recebe-se. No momento.
Desilusões amorosas não são, contudo, mitos. Existem. Quando nos focamos demasiado no amor que sentimos pelas memórias que alguém nos deixou, quando criamos ilusões, quando nos mentem.
-Vou amar-te para sempre – isto nunca se diz!!
-Amo-te – quando te disserem isto, lembra-te: é no momento, não é para sempre!, não te comeces já a iludir.
Pronto. Assim ninguém se ilude. Amamos no momento. Depois do momento, é seguir em frente. Temos recordações, vamos amá-las de vez em quando até que fiquem calcadas por novas recordações, novos momentos em que amamos.
Amar não pressupõe qualquer compromisso. Portanto, podemos amar assim. Só não temos que enganar ninguém. E ninguém tem que se iludir.

Um amo-te é dito no presente. Passado uma hora, esse presente já é passado.
-Amo-te
-Amo-te
Amemos em cada momento. Amemos com todo o coração, com todo o amor, sem pensar, sem reclamar.
Mas amemos as pessoas e paremos de amar as memórias.
Agarramo-nos às memórias do passado e ficamos cegos para o presente.
Amar é um verbo que só se deve conjugar no presente.
-Amo-te
Jamais
-Amei-te
Nunca
-Amar-te-ei.

PORCátia Cardoso
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