(…) não é normal me deixares tanto tempo sozinha (…)

Querido dono,
Faz hoje dois dias que me deixaste junto a esta árvore. Estou exactamente no mesmo sitio onde me deixas-te, ainda nem mexi uma pata do sitio e juro que só me deitei ontem à noite, a tentar adormecer. Os carros que passavam acordavam-me sempre e vinham com a mesma pressa que tu foste quando me deixas-te aqui. Estou cheia de sede e não quero sair daqui, para tu saberes que ainda aqui estou à tua espera. Ainda corri atrás do carro, mas tu conseguiste ser mais rápido que eu.
Também estou cheia de fome, afinal, sabes a comilona que eu sou e o quanto rabugenta fico se não me deres comer a tempo. Mas não te preocupes, eu desenrasquei-me, comi umas ervas que estavam atrás da árvore, sabiam mesmo mal mas sempre deu para saciar um pouco a vontade de comer.

Espero que esteja tudo bem contigo afinal não é normal me deixares tanto tempo sozinha. E logo eu, que sou uma brincalhona. E sei que por vezes erro por causa disso mesmo e que te dou muito trabalho afinal, todos os dias, de manhã te acordo para irmos dar uma volta para apanhar aquela aragem fresca. Por vezes deito o lixo da cozinha para o chão e tu ralhavas-me imenso por isso, mas eu apenas tenho curiosidade em saber o que lá estava e o porquê de estares todos os dias a tirar e a meter a tampa, nunca o fiz de propósito, acredita. Mas sempre assumi a culpa e nunca te rosnei por isso mesmo. Mesmo quando me batias, eu apenas me metia num canto e ficava a olhar para ti a pedir para parares, mesmo sendo apenas com o olhar, mas tu apenas paravas quando eu começava a chorar e a fazer demasiado barulho para os vizinhos.
Quando o meu dono mais novo nasceu, eu percebi que tinhas que dar mais atenção a ele que a mim e nunca levei a mal. Até que ia ter com ele imensas vezes para o acarinhar e o conhecer melhor, mas sempre que me chegava perto tu puxavas-me pelas patas lá para fora e ali ficava eu, na varanda.
Estou preocupada contigo, muito preocupada mesmo. Já faz dois dias em que não te vejo e estou a dar em doida. Ainda por cima ontem passou por aqui um passarinho que me disse que tu me tinhas abandonado, mas eu não acreditei! Afinal tu não eras capaz de me abandonar… Eras? Ele disse que nós, animais, damos muito trabalho e que vocês, humanos, não querem ter esse trabalho todo. Que não estão dispostos a levar-nos a passear todos os dias, que gastam imenso dinheiro em comida e que chegam a uma certa altura que deixam de nos dar atenção, que simplesmente se cansam de nós. Isso é possível? Cansar de nós? Ele disse que quando somos pequenos, vocês gostam de nos mostrar a toda a gente, que gostam de manifestar o amor que sentem por nós, mas que depois… Depois nós crescemos e deixamos de ter aquela graça que tínhamos quando éramos mais pequenos. Eu não acreditei em nenhuma daquelas palavras! Afinal, tu não és assim.
Eu posso não saber falar e sei que muitas vezes não compreendo o que dizes. Sei que dou muito trabalho e que quero brincar todos os dias com a bola colorida mesmo quando estás chateado com alguma coisa do trabalho mas acredita, eu era incapaz de te magoar e sei que nunca me irias fazer o mesmo. Sei que eras incapaz de me tratar mal e que quando o fazes a culpa é única e exclusivamente minha. Eu sei que o passarinho é mentiroso e que tu eras incapaz de me deixar sozinha sabendo que eu sou muito sensível ao calor. Sei que não me deixarias sem água e sem comida. Pois não?
Quero que saibas que estou à tua espera. E seja qual for o motivo de me teres posto aqui espero que saibas que te aguardo de patas abertas e sem guardar qualquer rancor! Afinal, se fizeste isto de certeza que foi para o meu bem.
Ah, tenho a bola colorida comigo. Consegui apanha-la a tempo. Fui uma boa menina!


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