Não há príncipes encantados…

Já percebi. Queres construir os planos perfeitos. Vais a cada dia acrescentando mais uma pequena maravilha no teu conto de fadas, que acreditas possível de se realizar. Não colocas qualquer condição. É o que queres e pronto. Terás de conhecer alguém que basicamente leia a tua mente e te dê tudo consoante as tuas pretensões, mesmo que isso se torne miserável. Porque se parares para pensar, talvez não estejas a imaginar nenhuma pessoa em concreto, mas sim tu própria. Tu e todas as tuas manifestações de perfeição, neste mundo tão inóspito para acontecimentos perfeitos.

É por isso que me recuso. Recuso-me a colocar amarras e a colar rótulos de romantismo incurável na minha personalidade. Porque eu vivo no imperfeito, e regozijo-me com o imperfeito. Porque o imperfeito é real, existe e é o mais sincero que poderás encontrar. Nele eu fico preparado. Não deposito demasiadas esperanças em algo quase impossível. Vivo no limite da loucura, no limite da obtenção, no limite da felicidade. E por isso eu sorrio tanto. Sorrio a sério. E por muito que pareça ridículo algo que estou a fazer, é verdadeiro, é sentido e faz-me sentir feliz.

Tu apenas sustentas expectativas para um futuro que não sabes se vais chegar. Queres príncipes que façam a vontade da princesa. Mas eu digo-te que não há príncipes assim. Digo-te que há desilusões, que há mágoas e atritos. Há imprevistos. Há dificuldades. Há opiniões diferentes e vontades diferentes. Mas é aí que o sentimento se revela. Quando há momentos que colocam obstáculos e momentos que os destroem completamente. Tudo deve ser consoante tem de ser. Não é necessário fazer parecer que se tem algo perfeito. Só é importante que os dois saibam o quão perfeito é o que há entre eles. Nada menos nada mais.

Podes acreditar no que eu digo. Os momentos são feitos para se viverem e não para pensar demasiado. É bom sonhar, mas com possibilidades a sério. Sonhar com histórias de encantar não te trará nada. Já ser espontâneo é a obtenção do magnífico. Mesmo que corra mal, garanto-te que não te arrependerás e ficarás mais forte. Ninguém precisa de cartas de amor, mensagens românticas, que lhe digam que a amam e que é para sempre, que vão ter filhos lindos, que o casamento vai ser perfeito. Caga para isso e para as palavras sobre isso. Precisas é de acção, de sentir, de viver e de ver evidenciadas todas as possibilidades. Não precisas de muitos mimos imateriais. Precisas é do contacto, do gesto e da demonstração de carinho, do silêncio numa troca de olhares intensa, de uma paixão indefinível.

Pensa bem, pensa comigo e vê se não é isso que queres. Isto que é inevitavelmente possível. Isto que será só teu e só para ti. Deixa as decisões, para quando for a altura delas. Porque nessa altura tu vais saber o que tens de decidir. Não precisarás de falar sobre o assunto. Lembra-te de separar a vivência do desejo. Depende tudo de ti. Ou te realizas ou viverás de arrependimentos. Quanto mais projectares, mais desilusões terás. Portanto expõe-te à descoberta. Deixa que a tua história aconteça e deixa que ela seja tudo que não conseguias imaginar e tudo que precisavas para ser feliz. Solta-te das lamechices e não dificultes o suceder daquilo que mais pretendes.