Quando morrer a tua curiosidade infantil…

Tem aquela aparência de mulher adulta. Entediante, mas independente. É uma excelente cozinheira provavelmente e adora surpreender-te com os teus pratos preferidos. Mas ambos sabemos que aquele bolo que ela faz nunca será tão doce como o meu, e os lábios tingidos de chocolate, não são tentadores. Vais beijá-la como beijavas a mim? Vais sentir aquele misto de amor e loucura?

O seu francês não é fluente, não estudou em escolas de luxo, nem sabe escrever tão bem quanto eu. Tem objetivos de vida. Trabalha e almeja levar-te naquela viagem a Paris, disseram-lhe que lá nasceu o amor. Está numa ansiedade total e eu torço para que seja a pior viagem das vossas vidas.

Tem os amigos perfeitos, oh ela é tão divertida. Nunca perde a calma. Nunca briga. Nunca fala sem pensar. Mais baixa do que eu, ao meu lado com certeza é uma pulga, nisso ganho dela. Mas eu realmente sou um gato e como vês esta não é a minha última vida.

Mas diz-me agora o que farás depois que morrer a tua curiosidade infantil e perceberes que o corpo dela que estreaste afinal não era não puro assim. Diz-me como te vais sentir depois que ela se dignar a revelar-te até os seus segredos mais obscuros e as verdades ocultas debaixo daquelas roupas caras? Conseguirás olhá-la do mesmo jeito? Conseguirás deitar ao seu lado quando a noite chegar? Vais pensar em mim cada vez que a tocares.

E quando ela te deixar sem um único centavo e sem almofadas para chorar, vais lembrar-te de como o meu colo era o teu porto seguro. Mas se foste e me trocaste por essa bruxa, pedaço de carne, não te preocupes mais comigo.

Todas as vassouras novas varrem bem, e logo perceberás que as cerdas dela já estão gastas. Um dias as rugas vão cortar-lhe a pele e a celulite vai invadir as suas pernas, vais querer voltar desse inferno que escolheste, com o rabo entre os cornos e vais implorar uma vez mais. Mas já estarei a um milhão de noites, longe desta enorme cidade.

Então se vais agora não te incomodes, eu não morrerei de decepção. Prometo que nunca me verás chorar, não tenhas pena de mim. Não te incomodes, ficarei bem, mas neste instante ela está a tua espera e entretanto o anel que lhe deste perderá o brilho, então amor não te incomodes, podes ser indelicado comigo.

Por ti eu desistiria de tudo o que tenho. Mudaria para um país comunista se viesses comigo, obviamente. Cortava as minhas unhas só para não te magoar. Engordava aqueles quilinhos a mais que tu sempre desejaste. E aprendia futebol, se tal te fizesse ficar. Mas não faz. E não importa.

 

PORLetícia Brito
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