Meu Querido Filho


Querido filho, talvez nunca te tenhamos dito isto desta forma, mas fizemo-lo, sem dúvida, de muitas outras formas ao longo de todos estes anos em que deste cor às nossas vidas. Expressámos-te o amor que sentimos por ti de mil e uma maneiras, como só os pais sabem fazer, mas desta vez queremos deixar-te esta pequena recordação, escrita, para que a guardes com o mesmo carinho com que foi feita.

Já passaram mais de duas dezenas de anos mas parece que foi há pouco. O tempo voa quando recordamos o teu percurso neste mundo, que te tentamos apresentar da melhor forma. Trocamos-te as fraldas, demos-te o comer à boca, ensinamos-te a andar e a escrever o teu nome. Tentámos explicar-te o que era certo e errado, fazer o bem e fugir do mal. Mas chegou o dia em que começaste a pensar mais pela tua cabeça do que pela nossa. Não precisavas mais daquela mão a amparar-te a bicicleta da vida e começaste a pedalar sozinho. Ficamos aqui, abraçados um ao outro, a ver-te pedalar ao longe. Sabemos que mais tarde ou mais cedo vai aparecer-te alguma pedra no caminho, algum buraco que te fará cair da bicicleta. Sabemos nós e sabes tu, mas nunca te esqueças que estaremos sempre aqui para te curar as feridas, não importa que idade tenhas ou que idade tenhamos nós. Estaremos sempre prontos para correr na tua direção e levantar-te de novo… ajudar-te de novo.

Não tenhas vergonha de chorar no nosso colo como quando fazias em criança; não tenhas vergonha de dizeres que nos amas quando já ouvires o mesmo dos teus filhos; não tenhas vergonha de nós quando já não pudermos andar pelo nosso pé. Não te pedimos que cuides de nós. Tu tens e terás a tua vida, terás a família que tu irás escolher e construir. Sabemos que nessa altura não seremos nós a tua prioridade. Sabemos e aceitamos isso, porque a vida é assim. Um dia fomos nós, um dia serás tu. Pedimos-te apenas que nunca te esqueças de nós, que saibas quem somos, o quanto te amamos, onde estamos e que estamos sempre à tua espera.

Perdoa-nos por nunca te termos dado tudo aquilo que querias; perdoa-nos por tantas vezes teres chorado e não termos mudado de ideias. Umas vezes porque não podíamos, outras porque não queríamos, mas sempre para o teu bem. E sabemos que hoje nos estás agradecido porque aprendeste a lutar pelo que querias e a dar valor ao que conquistaste. Foste o primeiro e único, tivemos de aprender ao mesmo tempo que ensinávamos. Não podemos dizer que te educámos da melhor maneira, nem sequer dizer que nunca fomos injustos contigo, mas podemos dizer que demos o nosso melhor. E isso ninguém nos tira. Se havia egoísmo em nós, ele desapareceu quando te segurámos nos nossos braços. Purificaste-nos os corações, deste-nos uma razão para lutar ainda mais, para acreditar ainda mais. Demos-te a nossa vida e tornaste-te nela.

Nunca te pediremos nada em troca. Demos e daremos sempre tudo o que temos por ti. Damos a vida sem pensar duas vezes, faz parte de se ser pais, faz parte da nossa natureza, não é algo que se pensa. Um dia entenderás melhor o que dizemos. Um dia, quando nos abençoares com os nossos segundos filhos, saberás que a tristeza deles dobrará em ti, a dor deles será muito maior em ti. Desejarás, muitas vezes, estar no lugar deles para seres tu a suportar os seus sofrimentos.

Não fomos, certamente, muitas coisas que poderíamos ter sido, mas fomos pais, e não há bênção maior. Não queremos que sejas aquilo que nós nunca conseguimos ser, mas gostávamos que tivesses o que nunca pudemos ter. Essa é a nossa missão!

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