Metamorfosear-me depressivamente…

Dei por mim a morrer. Dei por mim a sentir algo que não deveria sequer sentir e conhecer. Dei por mim a dizer-me que era proibido voltar atrás e chorar, só que eu não aceitei isso…Dei por mim numa depressão.
E o fim? Mas qual fim? E quando? A verdade é que, no fim, todos se tornam na pessoa que eles juraram nunca se tornar. É estranho, não é verdade?

A minha rotina diária torna-se incansavelmente persistente e cansativa. Dura. Desgastante. Onde todos notam o meu aspecto abstracto, o meu olhar fundo e a minha alma caída sabe-se lá onde e porquê. Não entendo o porquê de tanta pergunta retórica, eles têm o conhecimento de que estar numa depressão não é fácil e não vai ser curada tão facilmente e com intervenções do tipo “Vá! Vai tudo ficar bem! Precisas de sorrir! Fica feliz!”. Dou por mim a levantar o meu corpo da cama e sinto o meu piso gelado do quarto e, sempre que isso acontece, questiono-me “Será que é o chão que está frio ou eu?”, não conseguir distinguir certas sensações sendo meteorológicas ou não, o que estará de errado comigo? Olho para o meu espelho e, mais uma vez, questiono-me “Como é que eles não notam? Eu matei uma parte de mim para te manter vivo. Eu tenho medo porque eu sei que não consigo lutar para sempre…”

Mas eu posso dizer que a maioria nunca é ninguém. É um padrão vazio. Só que muita gente se consegue reconhecer nesta imensidão de padrão vazio. Como eu?

O problema sempre foi a incerteza. Custa-me tanto ter que acordar com um peso enorme em todos os pontos do meu corpo, sinto uma pedra enorme a ferir-me as costas enquanto que o meu peito tenta abraçar-me. Tenho-me esforçado para que todos os diálogos virem monólogos, tenho preferido a minha solidão nada genuína à pseudo presença de qualquer outra alma, tenho tido demasiado pensamentos que não ficam proferidos. Eu não posso fingir que estou bem, ou talvez posso. Eu tento não pensar sobre a dor que sinto por dentro, ou talvez não.

Algumas vezes, tudo o que eu posso fazer é deitar-me sobre o meu colchão com os lençóis em contacto com a minha pele e ficar com esperança de adormecer antes de me desmoronar. Dou por mim às três da manhã a saltar a janela do meu quarto e sento-me no passeio da estrada, está tão frio dentro de mim, não consigo sentir os graus negativos que dominam nas ruas a esta hora e consigo ouvir o meu cigarro a queimar, afinal de contas, os cigarros são os alimentos para almas quebradas. Eu sou os meus pensamentos e o que como. Eu sou para onde estou a ir e onde eu gostava de ir.

Todos os componentes que constituem o meu quarto viraram pontos de referência para os meus olhos, todos eles tão interessantes e tristes, desinteressantes e felizes. Perguntam-me qual é a parte mais infeliz e assustadora e eu digo que a parte mais infeliz e assustadora não é o sentimento de solidão ou a escuridão que me preenche apesar da dor iminente de vazio e sim, a parte mais infeliz e assustadora é, a realização de que me perdi completamente afundando-me nas minhas insónias às duas da manhã porque eu perdi a habilidade de dormir e nem consigo chorar porque já nem me importo.

Por favor, entendam que estou a tentar o melhor que consigo para ultrapassar isto, sozinha.

PORBeatriz Velez
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