Mentes Pequeninas…

Foi com a maior das aceitações e com a maior vontade, que me mudei para Londres. Mas não me mudei só a mim. Dei uma volta à minha vida de que não me arrependerei nunca e só tenho pena de não o ter feito mais cedo, sabendo, no entanto, que a verdadeira oportunidade surgiu no momento certo.

Vim, sabendo que seria um mundo à parte. Que valorizaria toda a informação e que aceitaria novas coisas na minha vida assim como novas pessoas. O mundo é um lugar tão especial em que se nos aceitássemos a nós próprios seria mais fácil aceitar os outros também.

De facto, Londres é uma das cidades do mundo que mais culturas apresenta no mesmo espaço. Aqui podemos ter um conhecimento das raças, religiões e costumes de praticamente todo o mundo.

Tem sido com grande honra que tenho respeitado e sido respeitada pelas várias culturas com que me tenho deparado, sabendo que o pouco tempo que aqui levo não foi ainda suficiente para aprofundar os meus conhecimentos culturais.

No entanto, é com grande insatisfação que me deparo com o racismo e a falta de tolerância das mentes pequeninas que, inevitavelmente, se encontram na minha vida.

Um dos episódios mais marcantes neste aspecto passou-se num dia normal, solarengo à maneira londrina, numa das minhas manhãs de trabalho no café português.

Cenário montado, entra a personagem principal. Uma pessoa de estatura alta e encorpada, com vestes longas e simples, maquilhagem sublime, com direito a pequenas tatuagens na cara, penas nas orelhas e cabelo azul bem comprido.

Nas mentes pequeninas isto não passou de um acto carnavalesco deslocado de data. Mulher ou homem? Praticamente impossível de distinguir. Índio? Provavelmente. Diferente? Completamente. Extravagante e com vontade de dar nas vistas? Sem dúvida.

No entanto, para mim, amante do mundo e da natureza das pessoas não passou de um fascínio. A razão pela qual fixei várias vezes tal pessoa, foi nada mais, nada menos que curiosidade pura e interesse no novo.

Tanto olhei para a pessoa e tanto a mesma olhou para mim, que trocamos alguns olhares significantes e acabamos por dizer um olá. Sentindo-me impelida a saber mais dirigi-me à mesa onde a personagem estava sentada a tomar um simples café com leite com uma outra pessoa, esta completamente “normal”. Fui agraciada com um sorriso aberto, uns olhos brilhantes e um cheiro característico mas forte. Falou inglês, mas pelo sotaque deu para perceber que não era nativa. Numa pequena conversa sobre bolos portugueses, maquilhagem perfeita e apreciação de conversas, temos um aperto de mão. “Nice to meet you. I’m John.” Um John brasileiro e indiano, ao que constou. Um John efeminado mas com silhueta robusta. Uma mão firme mas macia. Um elogio por eu ser uma pessoa tão agradável. Pelo à vontade e pela pequena conversa.

Fascinada, despedi-me de uma personagem bastante caricata que passou num dia aparentemente normal. Quando voltei ao meu lado do balcão fui recebida com olhares inquisidores, do género, esta miúda é louca, mas com perguntas que procuravam obter resposta à criatura alienígena que na mesa do fundo se apresentava. As mentes pequeninas queriam apenas cuscar e criticar a aparência tão fora do vulgar. A minha simplesmente aproveitou para desfrutar o conhecimento de novas culturas, ideias, gostos e perspectivas.

Pensei para mim que foi para isto que vim para Londres. Para me fascinar a toda a hora com a novidade, sem julgamentos. Apenas absorção de coisas diferentes e sugestivas.
Irei sempre lembrar-me do John, o índio que me provocou alguma dúvida entre masculino ou feminino, mas o índio que me disse umas palavras que me ficaram marcadas.
“O meu pai sempre me disse que devíamos ser bondosos o suficiente para permitirmos que o mundo nos veja no nosso melhor. Mostrarmo-nos bonitos aos outros para celebrar a beleza no mundo”

Um John com imagem bem diferente do aparentemente “normal” mas com gestos puros e palavras cheias de significado.

Caríssimos. Aprendam que nenhuma pessoa do mundo é o centro do universo. Nenhuma raça, cultura, religião e/ou ideais deverão ser usados para julgamento de quem quer que seja. A vida é mais do que parecermos todos iguais. A vida é mais que juízos de valor. Que ideias pré-concebidas. Talvez se não se focassem tanto no próprio umbigo reparassem na beleza que corre neste mundo, destinada a encher-nos os olhos mas também a mente. Neste último ano cresci imenso e o mundo tornou-se uma tela de artista por pintar. Pensei mais à frente. Não pensem no que é que este ou aquele vai pensar ou dizer. Apreciemos a beleza de tudo o que nos é dado todos os dias.

PORCatarina Diogo
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