Mentes-me com palavras, leio-te as acções.

Diz-me lá, de zero a dez, qual o meu nível de ignorância? Conheces-me tão bem e mesmo assim julgas que me consegues enganar? Deixa-me rir.

Eu sei que repetes as mesmas histórias dez vezes antes de me tentares convencer de que são reais, mas meu amor: eu não nasci ontem. Sei que em cada dez palavras que me dizes, cinco delas se anulam e trocam uma quase verdade por uma mentira inteira: meu amor, não me tentes enganar. E sabes porquê? Porque eu te conheço bem melhor do que me conheces a mim. E porque antes de me tentares enganar, já eu fui enganada um bilião de vezes. Por isso, poupa-te ao embaraço de fracassares redondamente nas mentiras que contas.

Temos duas chaves de casa para uma só fechadura. Temos dois tempos livros para uma casa apenas. Achas que não sei quem entra por aquela porta quando não estou? Meu amor, não me tentes enganar, porque quem fica a perder és tu.

Podes pensar que não te conheço os esquemas, podes até pensar que me enganas com um orgasmo mal fingido. Sei que te esforças até para me convenceres de que o teu cansaço se deve única e exclusivamente ao dia exaustivo que tiveste, mas meu amor: eu trabalhei seis horas a mais que tu e estou de pé, pronta para um jantar romântico e um vinho dos baratos, que tu prontamente gastas com outra.

É irónico que me tentes enganar com palavras, quando eu te leio as acções. Pensas que não conheço os teus jogos e os teus desabafos pouco sentidos? Conheço e às vezes sinto que sei as tuas desculpas muito antes de tu as construíres.

Peço-te que não me mintas e acredita que não o peço por mim, ou para me poupar ao sofrimento de descobrir a verdade: não. Peço-te que não me mintas para te poupar a ti à humilhação de veres as tuas desculpas serem descobertas. Não me mintas, para teu bem e para que a tua dignidade se mantenha intacta.

Lembra-te, meu amor: eu sinto um perfume no ar e sei que não nos pertence, por isso não tentes deixar outro sabor na tua boca ou outra boca no teu sabor.


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