Memórias dum pai que nunca tive…

Não sei quem és, posso até desconfiar mas sinceramente nunca me importei com o facto de para nós seres só um nome no meu Bilhete de Entidade.
Deveria de ser proibido ter categoria de pai quem nunca o foi, mas sempre vivi bem com isso.

Na escola, a confusão era só para os outros meninos- “Não tens pai?” ; “Não, tenho a minha Mãe” e se até hoje não te procurei é porque até então nunca precisei de ti.

Nunca serei mais nem menos que qualquer um dos outros, sou uma pessoa sortuda porque tive na vida uma ausência que nunca se fez sentir. Hoje sim, choro pela ausência daquela que fez o teu papel, bem melhor do que tu serias capaz de fazer.

Não sei as circunstâncias em que a vida te colocou, mas para mim sempre foi muito fácil de lidar com o facto de que, para nós, nunca exististe. Nunca senti mágoa ao ver fotografias de famílias “normais” enquanto que a minha família era rica em pessoas que me amam de verdade. Hoje sim, choro ao ver fotografias que nunca mais poderei “imitar” porque falta a minha Mãe.

Mas que te interessa a ti que eu, tua filha, chore? Foste alguém que nunca se importou em saber se eu estava bem, se era feliz ou se a tua mera ausência me fazia confusão. Digo-te agora, que estou bem e sou uma Mulher, aquela que não viste crescer nem ajudaste a levantar do chão. Mas sabes de quem é o problema? Apenas TEU.

Um pai que me ensinasse a andar de bicicleta e que, com paciência, me fizesse perder o medo de andar sem rodinhas, um pai que me levasse a ver um jogo de futebol e me aliciasse a ser do seu clube, um pai que recebesse aquelas prendinhas do infantário que fiz com tanto carinho e amor, um pai que me desse as mãos quando calçava os patins, um pai que me perguntasse quem era o rapaz que tinha o nome dentro de um coração desenhado nos meus cadernos, um pai que me perguntasse quem eram os amigos com quem eu andava a passear, um pai que me proibisse de sair de casa a uma sexta à noite, um pai que me desse severos castigos e fizesse cara de mau, um pai que me repreendesse, um pai que seria para sempre o meu melhor amigo, um pai que me amasse, um pai que fosse pai. Coisas que a maioria presenciou, coisas que eu vivi, não contigo, NÃO! Mas com as pessoas que fizeram de mim uma pessoa feliz, a criança mais feliz do Mundo e a grande mulher que sou hoje.

Escrevo sem que a ti cheguem estas palavras. Escrevo por desabafo e não por raiva. Jamais poderei guardar rancor de uma pessoa que desconheço, jamais. Apenas clarifico que toda a atenção que não me deste, todo o amor que de ti não chegou, que todos os carinhos que de ti não recebi fizeram de mim a melhor pessoa do mundo para a minha Mãe, porque sempre confiei nela para fazer o teu papel e ponho as mãos no fogo pelas vezes em que ela falhou como mãe e pai.

Tu foste e és só um nome no meu, actual, Cartão do Cidadão. Na minha identificação pessoal constam vários nomes e o teu nunca estará incluído, porque pai não é quem gera, pai é muito mais do que o senhor da sementinha, pai cuida, educa, está presente e AMA. E tu? Tu certamente que não querias para a(s) tua(s) filha(s) um homem pequenininho como só tu soubeste ser.

PORIrís Pires
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