Se tens medo, não é amor.

Todas as relações têm momentos bons e momentos menos bons. É normal e permite que o relacionamento seja desenvolvido na base do diálogo e da aceitação. Discutir é normal e será sempre.

No entanto, quando a discussão ultrapassa o limite do diálogo e se torna física, é altura de decidir que chega.

Discutem uma vez porque a amiga dele (que tu não suportas ) comentou mais uma fotografia dele com três corações, mais um coração do que da última vez. Ele discute contigo porque o teu amigo de infância te enviou uma mensagem onde te chama de “pequenina”. Todas as discussões terminam seladas com um beijo na testa e um pedido de desculpa. Mas dás por ti a evitar os cafés com os teus amigos, já nem sais de casa quando estás de folga porque ele trabalha e vai ficar impaciente com a tua ausência. A vossa vida segue em frente e a tua vida fica parada, dia após dia.

Ele saiu a noite toda com os amigos, nem te convidou para o acompanhares, tentas dormir e as tuas mãos procuram impacientemente o telemóvel que escondeste debaixo da almofada de forma a cortar o contacto com as mensagens embriagadas que ele te envia. É masoquismo. Em 30 mensagens que te enviou durante o dia, 23 eram insultuosas e agressivas. Optaste por não responder a nenhuma delas, não quiseste continuar uma discussão desnecessária e esperaste que um simples “Eu amo-te, pára com isto” acalmasse o fogo destrutivo das mensagens dele, não foi?

Com o passar do tempo dás por ti a ter medo de abrir as mensagens dele, nunca sabes se te vai chamar de amor ou de put@. Não sabes se vai dizer que te ama ou se está farto de ti. Cada vez que o teu telemóvel vibra e o nome dele aparece tapas o ecrã com a mão e deslizas os dedos suavemente para permitir que as letras das mensagens surjam calmamente, para que a tua cabeça perceba o que vem dali afinal.

Tentas sair de casa e fazer uma vida paralela, já nem sabes se lhe deves contar que foste ao supermercado comprar detergente para a louça porque na cabeça dele existe uma história moribunda por trás da tua saída: “Estiveste com quem?”; “Queres mesmo que acredite que saíste de casa para ir comprar detergente?”; “Diz-me com quem é que tu estiveste!”. Ligas os dados móveis e envias uma fotografia da porta do supermercado. Mas não paras por aí. Envias uma fotografia do detergente e do talão. Filmas os teus passos até casa: “Logo à noite mostro-te o vídeo amor.” Sorris, sabes que tens provas plausíveis para que ele sossegue a cabeça. Porque no fundo, é isso que importa, não é?

Ele chega a casa e abres a porta com um sorriso nos lábios, ele empurra-te contra a parede e tu baixas o olhar. “Já passou”, pensas tu. Tens a certeza que não fez aquilo por mal, vinha chateado do trabalho e tu não facilitas as coisas para ele: “Mas porque é que fui comprar a porcaria do detergente?”, a culpa é tua, não é?

Uns dias mais tarde recebes uma mensagem da tua melhor amiga que te agradece o apoio que lhe deste naquela chamada onde te contou que o namorado a tinha traído. Ele vê a mensagem dela no teu telemóvel e assume que lhe andas a mentir, diz-te que gravaste o número com o nome da tua melhor amiga para o dissuadir de te confrontar com o engano. Juras que é ela e propões até ligar-lhe em altifalante para que ele perceba que não estás a mentir. A mão dele encontra a tua cara, enquanto te agarra pelo pescoço com a outra. Tem os olhos raiados de raiva. Não choras, não gritas, não pedes que te largue.

Ainda ontem fizeram amor. As mesmas mãos que ontem percorreram o teu corpo em juras de amor, hoje asfixiam-te e causam-te dor.

O amor não te pode causar dor, nem medo. Se as mãos que te amam são as mesmas que te magoam então não é amor. Se tens que filmar cada passo que dás e justificar cada suspiro teu, então não é amor.

O amor é uma âncora que te prende num lugar seguro, não uma âncora que te impede de ir a algum lado. Por isso segue a corrente, procura outro mar, outro porto.