Mais vale nunca, porque já vens tarde!

Volta, que eu já fui embora. É tarde mas ainda vens a tempo. De aprenderes. Lembras-te do sitio onde me deixaste; já não estou lá. Verifica se quiseres. E fica lá, à espera que eu não volte. O mal das pessoas é pensarem que tudo o que permanece imóvel está seguro. E que tudo o que está seguro, assim continuará. Uma mão fechada não chega.

Durante vários anos julguei-te minha quando pertencias ao mundo. Prendi-te em cada memória que deixaste comigo. E quando não estavas, dizia-te as palavras que mais querias ouvir. Eu estava ali. E tu estavas longe. Não tinha medo de homens. Tinha medo de ti. Então continuava ali, quieto, dono da minha insanidade, à espera que voltasses para a remissão dos dias. Tu tinhas uma vida e amigos. E eu sem ti não tinha vida. Quando te sentias sozinha, telefonavas. Que tinhas saudades das nossas madrugadas, era o que dizias. E toda a dor dos dias em que não vinhas se dissipava. Tudo isto, sempre igual, até ao dia em que não me visitaste durante dois meses. Pareceram anos. Tu não vinhas. Os meus lábios estavam secos. E o meu corpo desidratado. Então liguei para o tal cento e dose. «Qual é a urgência?» – perguntaram. E eu respondi: «Tenho os lábios secos, preciso de beijos». E a mulher riu-se. No hospital levei soro durante quatro horas seguidas. Olhei para o lado e estava uma rapariga a levar soro também. Deve ter falta de beijos, pensei eu para mim. Perguntei-lhe e ela também se riu. Ainda hoje não entendo qual foi a piada; uma pessoa já não pode desidratar de beijos, é? O soro tinha-me beijado o suficiente, e já nem pensei mais em ti. Depois disseram que já me podia ir embora. Acabei por conhecer uma rapariga no Café Avenida, arranjar um emprego e mudar-se para a baixa da cidade. Um dia ligaste-me. Querias-me ver. E sentias-te sozinha. Vai ao hospital. Eles dão soro e isso passa.
Que coisa tão estúpida. Desidratarmos de amor

No amor aprendemos em conjunto. Só existe quem aprenda mais tarde e da pior maneira. Como tu, minha amada. Tu, que chegaste tarde. Tu, que pensavas que eu ficaria ali, eternamente, à espera do teu arrependimento. A vida dá-nos tempo. E o tempo rouba-nos vida. E de repente tudo se torna irreversível.

Nunca ouviste dizer: mais vale nunca porque já vens tarde.