Mãe, vou emigrar…

Mãe, vou emigrar.
Eu tenho tentado, juro-te, pela minha saúde; juro-te que tenho tentado ficar por cá, ficar por perto, de ti e do puto, esse canalha que anda na idade das miúdas; olha, até eu andei atrás de umas quantas, na altura em que a vida eram hormonas e que os sentimentos eram descartáveis. Mas a pele começa-me a pesar, Mãe, até já tenho cabelos brancos, imagina só… cabelos brancos, que coisa tão estranha para quem tão pouco fez na vida, e a pele está a ficar mais elástica.

É da idade, Mãe, bem me avisaste que de um momento para o outro este aspecto jovem com que sempre me conheceram ia começar a deteriorar-se, como o sal do mar faz à pintura das casas, ou como nos tempos em que vendias bacalhau e tudo o que ficava à volta daquelas caixas de vinte e cinco quilos que acarretavas com a tua coluna, oxidava. Lembras-te, Mãe, dizia aos meus professores que eras “bacalhoeira” e todos se riam, É o que nos acontece: oxidamos com o gelo e com o vento a bater-nos sobre a cara, como nas madrugadas em que o carro demora a pegar e que a chauffage não desembacia o vidro. Devo-te isso tudo, Mãe. E hoje, depois de tudo o que lutaste por mim, depois de tanta indecisão, depois de tantos erros ou coisas que ficaram por fazer, hoje, Mãe, depois do que a vida e a vontade me ofereceram, e depois do que eu conquistei, sinto que está na hora de vestir a farda, que é como quem diz: fazer as malas.

Eu tenho tentado, juro-te, pela minha saúde; juro-te que tenho tentado ficar por cá, mas onde? Eu bem olho à minha volta, mas quanto mais olho mais pressa tenho. É isso, Mãe: perdoa-me, que nenhum de nós tem culpa. Eu sei que dizem que numa mala se pode arrecadar o esforço de uma vida, mas…e tu, Mãe, em que mala cabem os teus beijos; em que mala cabem as lágrimas que choraste quando o teu pai morreu; em que mala, Mãe, em que mala cabem as manhãs que acordavas mais cedo para me fazer o farnel, ou em que mala cabe a tareia que me deste quando eu te fugi o dia todo com quinhentos escudos no bolso; em que mala, Mãe, diz-me: que mala?, e eu troco-a pelo meu coração.