Longe…

“– Vou emigrar, mãe”; estas eram, as poucas palavras, que tinha para dizer. Aquelas palavras que andavam, há dias infinitos, a atormentarem-me. Os dias eram tumultuosos e tristes como uma tempestade e as noites frias e solitárias como uma prisão. Consumiam-me as insónias, as paredes nuas e cruas do quarto, a sensação de ausência e distância permanentes. Eram as palavras mais duras de dizer e as mais difíceis de ouvir.

Foram aquelas palavras que fizeram desarmar o coração de mãe. Lembro-me perfeitamente do dia em que as proferi – sinceramente preferia não as ter proferido, sempre era sinal que viver no meu país ainda valia a pena e fazia algum sentido –, a dor que senti, o abalo que foi… E o teu abraço. O abraço de mãe cheio de receios e angústias, de desespero no olhar e tristeza nas mãos. O abraço que transcende o que somos. O abraço de quem vê um filho partir para o mundo em busca do desconhecido.

Ficamos ali naquele momento só nosso: um momento de partilha e troca: um momento de conforto. Via a revolta no teu olhar, a tristeza dos dias e a expressão de negação no teu rosto. “– É a lei da vida. Nascemos para voar”, fui capaz de argumentar, mas nada acalmava a pureza de um coração destroçado: “– Mas não é justo, filho; nenhum pai, nem nenhuma mãe se conforma nestas situações. É um desconsolo e uma desolação depois de tanto que estudaram e deram a este pobre país.” Palavras e voz de preocupação de quem se sentia tão ou mais assustada e perdida do que eu. Prometi-te: “– Vai correr tudo bem, vais ver. Por favor, não fiques assim… deixas-me ainda mais triste”; mesmo sem ter certezas, daquelas mesmas palavras. Vacilei, tinha vontade de desistir naquele preciso e exacto momento. Só queria sossegar-te, nada mais.

No meio das nossas conversas interrompidas predominavam as palavras: longe, independência e sonhos. Tenho imensos sonhos; mas não vou deixar de os querer concretizar e de lutar por eles por ter que o fazer noutro lugar. Infelizmente, já não há nada que me prenda a este mar de gente do país que me viu nascer, sinto que de certa forma já não tenho – nem nunca tive – lugar aqui, sou apenas um número sem oportunidade de fazer escolhas e sem esperança naquilo que o futuro me reserva. Não sou respeitado e querem fazer de mim uma pessoa pequenina como as outras.

Passaram-se dias, dias amargos de: silêncios, curtas conversas e parcas palavras. Dias em que não havia sentimentos que descrevessem o vazio que sentia, dias a contar o tempo para o dia em recomeçaria uma nova vida noutro lugar. Ouvi o meu pai dizer-me: “– Mais importante que tudo é seres feliz”.

Mas como posso ser feliz longe de quem amo e num sítio que não é meu e com o qual não me identifico? Pergunta sem resposta, talvez um dia o meu país ma devolva.

E o “grande” dia chegou: malas feitas, vazio à porta. Digo adeus às minhas raízes, digo adeus à família que amo e aos amigos que sempre foram o meu porto de abrigo ao longo destes anos. Digo adeus à pátria onde cresci; mas para a qual a minha partida não faz qualquer diferença. Digo adeus: um adeus que pode ser temporário; mas que – infelizmente –, neste momento, eu tenho mais vontade que, ele seja definitivo.

Chego ao aeroporto, de aperto no peito e expressão visivelmente assustada no rosto. “– Não quero fazer isto”: é o pensamento isolado que me ocorre e aquilo que o coração sente; mas tem que ser. Não foi o que eu sonhei para mim, não é este o futuro que desejo; mas não tenho alternativa: ou isto ou nada.

Sinto um arrepio no peito, quando reparo que estou rodeada de outros jovens na mesma situação que eu; é aterrador. Naquela sala e naquele pequeno instante colecionam-se os últimos abraços, beijos e conselhos de quem nos quer bem, lágrimas de saudade e sentimentos de perda. Por um lado, há algo que nos obriga a partir; mas por outro lado há algo nos repele a ficar. E quando menos se espera, o avião parte.

E desde o quarto, de um lugar longínquo, sento-me à secretária entre a luz fina da penumbra, de fotografias na mão a matar saudades daqueles que ficaram para trás. Choro, por não querer estar aqui de ânimo-leve: tento sobreviver à distância. Não me reconheço, não sinto este lugar como meu, o rosto das pessoas que passam na rua é-me indiferente. Tudo é diferente.

Quero voltar. Sei que por enquanto o meu caminho é este: aqui, bem longe. Mas um dia… um dia irei voltar.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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