Lembras-te?

Hoje olhamo-nos por tempo demais, e sinto que qualquer coisa mudou…

Não sei exactamente o quê, mas sinto um certo alívio e um certo poder de conseguir-te ignorar por tanto tempo, não me acho superior pelo feito, mas considero-me suficiente demais para falar por falar, e como nunca és muito claro no que pretendes…mais vale remeter-me ao silêncio. Porém, as memórias permanecem, não, ainda não me desliguei totalmente do passado, mas a vida não pára e nunca fui de ficar estática.

Lembras-te quando trocávamos cachecóis só para sentirmos o cheiro um do outro? Quando gostamos nada nos parece ridículo, e de facto a opinião dos outros nem sequer existe! Lembras-te quando nos ríamos, escondidos em qualquer canto cheios de adrenalina de sermos apanhados, a fazer mal nenhum, simplesmente por sermos segredo um do outro e por queremos preservá-lo mais que tudo?

Lembras-te quando trocávamos beijos apressados e abraços apertados?

Quando partilhávamos olhares seguros e apaixonados sobre o que faríamos quando o dia de trabalho acabasse? Quando te despedias com brevidade de mim para nem 10 minutos depois perguntares: “Onde andas? Quero-te ver.”? Quando me agarraste pela primeira vez usando a desculpa que não conseguias estar comigo com tanta gente pelo meio em direcção aos armazéns do chiado? Que tarde incrível…a aconchegar alma com chocolate quente, enquanto aquecias a mão no meu casaco discretamente, uma vista fantástica para o castelo S. Jorge, e um casal a fervilhar num início de uma paixão. A tarde transformou-se noite, e a noite, madrugada, e que madrugada fria…abraçados num carro, sem um único beijo trocado, somente na inocência de sentirmos o calor, o cheiro, o carinho de alguém que só nos quer bem, nos últimos dias tínhamos falado tanto, que naquele par de horas entregámo-nos ao silêncio, ainda que um silêncio ensurdecedor com o batimento forte de dois corações…

Sabes? Nunca tive nada assim…tão único e isso ninguém, nem o tempo nos vai tirar…

Lembrarei que a magia existe entre duas pessoas e que na realidade ela nunca se apaga, ela simplesmente perde a força.

Lembras-te da primeira vez que me fizeste chorar? Não? Eu lembro, disseste-me que não me conseguias ver chorar, depois dessas mais umas quantas, talvez não saibas de umas tantas, porque perto de ti fazia questão de me segurar.

Lembras-te que me prometeste que ias mudar? Lembras-te quantas vezes disse que não voltaria para ti, que as coisas acabavam ali? Lembras-te quando amparava as tuas quedas, apertando-te com força, contra o meu peito, afagando a tua cabeça, e quando olhavas para mim parecias um menino perdido…tão perdido…e tudo o que queria era cuidar de ti.

Agarrar essa alma e fazer com que te encontrasses em mim.

Diz-me que te recordas quando te disse nesse mesmo dia, no primeiro dia, que queria casar e ter três filhos, o objectivo era que fosses embora assustado, mas ficaste! Quando ainda conseguia ser consciente e lógica, disse-te : ficamos por aqui, temos objectivos de vida diferentes. Seguraste-me a mão com um sorriso tímido e disseste: “tal como nos filmes aparece sempre alguém que nos faz mudar de ideias”, eu expliquei-te que não fui feita para mudar a cabeça de ninguém, hoje sabes, que enlouquecer já é outra conversa.

Lembras-te que cansei-me das tuas promessas, e que te disse que não tinhas palavra?

Do que fizeste todas as vezes que te castiguei pelas atitudes miseráveis que tiveste para comigo? Conversas sem fim, desculpas sem pedidos, argumentações sem palavras, olhares desejosos, uma rosa branca, granola caseira…mil e um jantares, tudo para não te apagar de vez da minha memória.

Passos ao de leve para uma reconciliação começam com likes, msg’s, e-mail´s,…até uma carta…e nada mudou, pois não?  Por vezes temos que mudar, as tácticas usadas com demasiada frequência, eu já as conheço decore.

Lembras-te que passado dias voltava tudo ao mesmo?

Eu lembro, lembro tão bem que ainda hoje sinto um certo desconforto quando cruzas-te no meu caminho. Eu sei, eu disfarço bem.

Lembro-me perfeitamente das vezes que me perguntaste se tínhamos sido felizes, vivemos uma história atribulada, de tão escondida acabou toda chafurdada pela opinião alheia, de quem não conhece nem um terço do que somos e o que vivemos.

Lembra-te de futuro, quando já não nos cruzarmos, de tudo o que aprendemos juntos, de tudo o que fomos, e do que ainda somos, não te esqueças do que te disse, que os outros são só e apenas os outros e que só tu podes fazer o teu caminho, acompanhado ou não és tu que o vais viver, portanto ainda que longe de mim, meu bem trata de ser feliz.

PORAna Mendes
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