Já não tenho outro chão…

Hoje é sábado. Disseram-me que é sábado. Tentei espreitar a data do jornal que estava em cima da mesa – só para certificar-me -, mas a vista já não alcança. São os óculos que reclamam reforma! Mas já não vale a pena!… Já não preciso de ler o jornal: um gesto repetido durante décadas e décadas, diariamente, após o pequeno-almoço, enquanto a minha Anita acabava de preparar os miúdos para eu levá-los à escola.

Como era bonita – e paciente e dócil -, a minha Anita! A paciência era, sem dúvida, a sua maior virtude. E aqueles dois reguilas em casa… cirandavam e barafustavam e, às vezes, faziam tanto barulho que parecia que tínhamos uma equipa inteira de futebol dentro de quatro paredes.

Hoje já não preciso deles (dos óculos, claro está!). Já não leio o jornal. Ainda o folheio, é verdade. Acho que é o hábito; é pelo prazer de sentir o papel na mão. Trabalhei com papel a vida toda: fui contabilista (e sem essas máquinas modernas que sei que agora usam.

Usávamos a cabeça e a inteligência que Deus nos deu!). O meu filho mais novo seguiu-me as pegadas; estabeleceu-se, está encaminhado! Muito orgulhosa ficou a minha Anita quando se formou o mais velho: um filho advogado! Era o senhor doutor lá do bairro.

Chegou a apoquentar-se com o nosso caçula. Ah! mas para quê? O pequeno fez-se à vida e hoje está bem.

Será que é sábado, hoje? Penso que sim. Percebo pela azáfama – na sala de refeições – que dilui a pacatez dos outros dias, sempre mais cinzentos, o arrastar preguiçoso e cansado dos pés dos velhinhos (agora meus companheiros neste final de viagem) e o ar enfadado da D. Alzira e da menina Justina.

Ao sábado e ao domingo é sempre diferente: a comida parece melhorada; há mais paciência nos gestos da D. Alzira e até a menina Justina já não diz: “Olhe só a porcaria que está a fazer, senhor Lopes. Abra a boca!”. Lembra, antes, ao pobre do Lopes, que vai receber a visita da família e que eles hão-de querer vê-lo fresquinho.

Estou a mudar de sítio, a minha cadeira é agora empurrada por alguém que me leva para a sala de convívio. Estou demasiado velho e demasiado preguiçoso para voltar-me e saber quem me conduz. Sei que vão deixar-me ali, junto à janela, para que possa ver o mar que estende o azul lá em baixo. E o mar invade-me as memórias de dias tão felizes: dias com cheiro a Anita, e a juventude, e a amigos, e a filhos pequenos… será que vêm ver-me hoje?

A minha Anita não deveria ter partido antes de mim. Não é justo! Quem é que olha agora pelos miúdos? Eu já não tenho força e… estou aqui empatado, já não saio daqui, já não tenho outro chão. Será que vêm?

Sei que é sábado. Está a chegar a D. Matilde, ela só vem aos sábados. Vem ver a tia – que está mouca! Completamente surda, coitada!… Passa por mim e pergunta, amavelmente: “Como está hoje o senhor? Está um lindo dia lá fora!”. Olho para a D. Matilde, não digo nada, não esboço um sorriso – até os músculos estão preguiçosos! Sinto o perfume dela que impregna agora o ar com o adocicado das flores e sei que… oh! Chegou o filho do Sebastião, e traz os filhos pela mão. Que contente vai ficar o Sebastião. Já há semanas que não vinham visitá-lo! Será que eles vêm? Têm sempre tanto trabalho… são jovens muito ocupados e com muita responsabilidade, os meus pequenos. Dois bons rapazes, isso são!

Claro que é sábado! O filho da D. Marcolina também só vem aos sábados. Está sentado aqui à beira, com ar taciturno, mãos nervosas e irrequietas. Fala de crise e das falências que andam lá fora a assustar empresas e negócios, das lojas afamadas com papel pardo a substituir as cores vivas que, nas montras, marcavam as estações, dos políticos – “uns corruptos mentirosos que hão-de pagá-las! Sim, porque Deus não dorme” -, do desemprego que devasta famílias, fala também da crise de valores e das escolas “que já não são o que eram” e fala, fala que não se cala. E eu gosto disto de fingir que não ouço.

Levam-me a sério! Não me maço, não tenho de responder ao que me perguntam e fico a saber de coisas que de outra maneira não saberia. Às vezes pode ser muito divertido!
Hoje é sábado, é mais um sábado… será que eles vêm? A menina Justina passa por mim, afaga-me o braço: “Então, hoje não teve visitas? Vai ver que amanhã aparecem.” Falta-me o ar, aperta-se-me o peito. Não quero chorar, que os homens não choram! A cadeira de rodas serpenteia os corredores. Está na hora de nos prepararmos para o jantar… sinto as faces molhadas. Mas que raio de óculos, já não valem nada, estragam-me a vista! Não, não estou a chorar, que os homens não choram! Hoje é sábado, mas eles não vieram.


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