Já dei tudo uma vez…

Já dei tudo uma vez. Já dei tudo naquela única vez e não sobrou nada depois disso. Quando alguém dá tudo a outro alguém, há partes de si que já não volta a recuperar. É como dizem, deu, está dado e se deste foi por quiseste, ninguém pediu. Culpada. Dei tudo porque quis é um facto. Dei tudo porque me apaixonei, porque me permiti amar, viver, sentir mas esse não é o erro, isso nunca pode ser um erro. O erro está quando se faz tudo isso à espera do mesmo ou de melhor ainda. O erro é quando já não damos porque queremos mas porque temos necessidade disso. Necessidade de dar ainda mais para não perdermos o que achamos que é nosso porque já demos tanto que perderíamos tudo se não o fizéssemos.

O meu erro é que amei por mim e por ele, fui por mim e por ele, desejei por mim e por ele, aprendi a gostar menos de mim e mais dele, habituei-me a ser mais dele do que minha. Onde eu estava com a cabeça para a achar que aquilo que eu dava aquela relação por ambos era o suficiente para ele? Onde eu estava com a cabeça para insistir em amar pelos dois? Dei tudo e esqueci-me de guardar um bocadinho para mim. No dia em que tudo desmoronou, eu que tinha dado tudo fiquei sem nada em mim e de mim. Fiquei desfeita em pequenos pedacinhos do meu eu, do que vivi, do que senti, do que acreditei, do que eu fui em alguma altura da minha vida.

Demorei muito tempo para conseguir reunir todos esses pedaços de mim e reconstruir-me, recompor-me, superar-me e tentar mais uma vez. Onde estava eu com a cabeça quando achei que me podia enganar a mim mesma e obrigar-me a tentar de novo sem estar preparada? Se eu não tivesse desejado tanto que isso fosse verdade talvez não me teria convencido que era mesmo capaz de o fazer. Quis tanto acreditar que estava pronta para me dar outra vez a outro alguém que acreditei que era real e fui feliz naquele momento porque apeteceu-me dar-lhe tudo mas depressa percebi que quem abdicou de tudo de si uma vez, já não consegue dar tudo outra vez. E ainda bem porque isso significa que aprendi a amar-me mais a mim ao invés dele e a viver por mim sem depender de alguém para me dizer quem sou e se sou digna ou não do seu amor. Dei tudo uma vez, mas uma vez chegou.

PORSusana Correia
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