Insensibilidades

“Senti-me triste, sozinho…abandonado. Ainda não consegui perceber o que a levou a fazer isto. Sempre me portei tão bem. Foram imensas as vezes que a fiz sorrir. Tinhamos o nosso ritual, todos os dias ela tratava de mim como ninguém, durante anos. Pensei que tinha finalmente encontrado a minha casa.

Todas as manhãs colocava os seus chinelos perto da cama e trazia o jornal para dentro de casa. A comida que ela me dava era das mais baratinhas e eu gostava. Sem eu pedir ela jogava comigo ao que eu mais gostava: apanhar a bola. A primeira vez que me deixou num hotel, custou-lhe tanto que, quando me foi buscar, chorou de alegria. Todas as noites viamos televisão juntos antes de ir dormir. Sempre fui muito calado para não incomodar os vizinhos, bem como obediente. Mais tarde até o João, o novo namorado dela, gostava de mim. Passei a brincar muito mais. Ambos me amavam muito. Quando foram de férias para um lugar mais próximo de casa, levaram-me com eles. Foi tão divertido! Nadei muito na praia.

Mas hoje estou confuso. Não sei o que aconteceu. Quando acordei a minha dona já não estava na cama. Estava a colocar qualquer coisa no carro. Pegou na minha bola e chamou-me, fiquei todo contente, achei que fossemos brincar. Quando cheguei perto dela, pegou em mim, deu-me um beijo e colocou-me no banco de trás. Não tenho ideia de quanto tempo demorámos a andar de carro, mas quando parou o carro, pegou em mim e na minha bola. Ainda pensei que me tinha levado a passear a um lugar novo e que íamos brincar. Atirou a bola e eu fui apanha-la. Quando voltei, ela já lá não estava. Portei-me assim tão mal?”

Já imaginaste abandonarem a tua pessoa assim, sem mais nem menos? Toca-te.