(In)Diferenças…

Queria a vida e aqueles que nos eram mais próximos que os nossos caminhos não se cruzassem, porque as diferenças que nos separavam eram muito maiores que aquilo que sentíamos e nos unia. Mas quis o destino que as diferenças que nos poderiam separar, ajudassem a criar laços: ligações: fortes, cúmplices e íntimas, que aos poucos nos foram mostrando como vencer cada obstáculo e cada dificuldade e que deram um forte contributo para a nossa história.

Ninguém acreditava em nós e num futuro a dois mas juntos provámos que o amor vai muito para além das nossas diferenças.

Tudo começou no café da esquina, perto do meu trabalho. Na minha maneira atarefada de ser, entrei no café e pedi o pequeno-almoço de sempre; o tempo voava a conta-gotas e a senhora do café – habituada à minha presença –, já o sabia.

Sentado ao balcão estavas tu: de fato e gravata vestidos, concentrado no ecrã do telemóvel e tomavas talvez o primeiro café da manhã, calma e pausadamente como se o tempo não corresse para ti. Confesso que poucas ou raras vezes te tinha visto por ali e estava longe de imaginar que um dia as nossas vidas acabassem por nos juntar.

Esgotamos o tempo e a fome praticamente em simultâneo: tu na calma do teu ser e eu na depressa do costume; até que… no momento de pagares a conta me apercebo do teu súbito estado de espírito de aflição. Disfarçando atentamente, apercebo-me pela conversa que tinhas deixado a carteira no carro – estacionado a uns bons minutos do café – e que as moedas que trazias no bolso não eram suficientes. Podia ter-me levantado da mesa e ignorado o problema que na verdade nem era meu; mas, de facto, não fui mesmo capaz de o fazer e por isso, aproximei-me do balcão e com toda a boa-vontade do mundo, ofereci-me para pagar o que faltava.

Envergonhado e comprometido, agradeceste o gesto e prometeste devolver-me tudo no dia seguinte à mesma hora, no mesmo lugar; vi sinceridade e simplicidade nos teus olhos. Trocamos um sorriso amigável e depois cada um continuou a sua vida.

Era nova naquela altura e andava à procura – ainda que não desesperadamente – do meu primeiro grande amor, as escassas relações que eu tinha tido, tinham sido pouco especiais. Sabia de antemão que a nossa diferença de idades era um ponto negativo a nosso favor, não sabia nem fazia a mínima ideia da tua idade, mas tinha plena consciência que eram vários os números que nos separavam.

No dia seguinte, pela manhã: à mesma hora e no mesmo café, voltamos a encontrar-nos: eu na correria do costume e tu na calma e sossego que pareciam acompanhar-te dia após dia. Sentei-me a uma mesa e aproveitei para tratar de umas papeladas enquanto tentava contornar o desassossego de mais um dia de trabalho completamente do avesso; de repente, aproximaste-te da minha mesa e perguntaste-me se te podias sentar fazendo-me companhia. Disse que sim, gentil e amavelmente, sentaste-te e tiraste logo do bolso algumas moedas: a quantia equivalente àquela que te tinha emprestado ontem e devolveste-me o dinheiro.

Agradeci e depois sem nada o fazer prever começamos a conversar como se nos conhecêssemos há anos; mas acabássemos de nos reencontrar. Fiquei a saber que te chamavas Vasco, que tinhas 32 anos, que eras empresário no ramo têxtil e que estavas a tentar superar um divórcio recente. Vi o teu olhar fragmentado, partido de amor; na humildade da tua pessoa pediste-me desculpa pelo desabafo e disseste-me que eu era demasiado jovem – vinte e cinco anos apenas – para compreender a complexidade do amor. Que não tinhas sorte nas relações e que tinhas decidido ficar sozinho.

Confesso que, apesar de mal te conhecer, fiquei de coração apertado perante tanta mágoa, por entre desabafos disseste-me que estava a ser muito difícil superar a situação, que a tinhas amado mais do que eu podia imaginar, que não sabias viver sozinho e que te tinhas refugiado no trabalho para manteres a cabeça ocupada. Eras uma espécie de criança perdida no tempo, dentro de um corpo de adulto.

De repente, senti que não estavas ali por acaso e decidi arriscar: convidando-te para um simples passeio junto à marina. Disseste-me que não querias que eu me sentisse na obrigação de te ajudar, e eu disse-te que estava a gostar muito da tua companhia e que iria ser bom para os dois, darmos um pequeno passeio antes do regresso ao trabalho.

E foi durante aquele passeio que a nossa história começou, o meu coração percebeu de uma maneira subtil que estava perante o seu primeiro grande amor. Disseste-me de olhos postos no rio que eu tinha sido das poucas pessoas a importar-se com o que tu sentias e pensavas, que em todas as tuas relações falhadas, toda a gente te tinha apontado o dedo como se tu fosses sempre o culpado de o amor não resistir. Na verdade, todos sabemos que o amor também erra e também falha; assim como a vida e como seres humanos que somos.

Sorriste: um sorriso respirável, belo, leve e suave. Que me conquistou num ápice. No entanto, estávamos longe de imaginar a longa jornada que se avizinhava.

Os encontros no café sucederam-se, depois surgiram os jantares juntos: umas vezes na tua casa, outras vezes na casa dos meus pais. As saídas à noite e de repente, descobri um Vasco que não conhecia: alegre, extrovertido, aventureiro, apaixonado, desassossegado. Numa das nossas noites, sentados no colo um do outro, na sala da tua casa, agradeceste-me emocionado pelo facto de eu ter conseguido recuperar o antigo Vasco, por ser a principal responsável pela felicidade que inundava o teu coração e pela nova vida que tinhas: estavas preparado para novos desafios e para te entregares a um novo amor. Pensavas que isso já não seria possível e que era muito bom estar de volta.

Comovi-me. Abraçamo-nos e prometi-te que nunca jamais me separaria de ti; mas os tempos que se seguiram foram tumultuosos com o aparecimento da Leonor – a tua antiga companheira – e a recusa dos meus pais em aceitar o nosso amor só porque eras mais velho que eu e tinhas passado por um processo de divórcio. Não eras a pessoa que os meus pais tinham idealizado para mim e eles não se coibiram de o mostrar, fizeram-te sentir na pele a dor do preconceito da idade e da indiferença. Queriam a todo o custo obrigar-me a desistir de ti e do nosso amor, quando tu eras a única pessoa que eu amava.

Vem agora à minha memória, aquele momento em que tu vieste ao meu encontro e me disseste que o melhor para ambos era que fôssemos apenas bons amigos, porque aquilo que tu menos querias era magoar-me e desiludir-me. De lágrimas nos olhos beijei-te apaixonadamente e disse-te que não cederia aos caprichos dos meus pais e que lutaria por ti até ao fim, que o nosso amor iria ser sempre mais forte.

E assim foi… Por entre lutas, muitos avanços e recuos. O nosso amor venceu, continuamos juntos e felizes.

Porque o amor vai muito para além da (in)diferença!

PORAna Ribeiro
FONTEEscreViver
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