Idade tatuada no corpo …

Conheciam cada risco da pele que o avançar da idade lhes tatuou no corpo. Pertenciam-se e gostavam-se por isso. Elogiavam o carinho, a dedicação, a paciência, a amizade e o amor que cada um depositou no outro e naquela relação. Fizeram-no de livre vontade desde o primeiro dia que descobriram o verdadeiro significado do verbo amar. Esse dia já tinha sido há tanto tempo. No tempo do pretérito perfeito. No presente, o verbo continuava a fazer-lhes sentido ser conjugado na primeira pessoa do singular e plural: “eu te amo” e “nós nos amamos”.

Tinham construído tanto e apesar da idade, sabiam que ainda tinham forças para se continuarem a amar. Mas tinham medo! Medo de se perderem num daqueles dias que ainda estavam para vir. Já se tinham prometido dizer adeus ao mesmo tempo. Não eram capazes de imaginar a vida sem se terem aos dois. Como seria reaprender a viver sem a presença daquela outra mão enlaçada à deles depois de tantos trezentos e sessenta e cinco dias partilhados de mãos dadas? Como seria para ele acordar um dia e não a ver a beber naquela chávena, que era a dela, o café que ele acabara de filtrar? Com seria para ela não o ter ali sentado com o braço sobre o seu ombro, pronto para a ouvir ler uma carta, ao acaso, que tiravam daquela caixa que tinha pedaços escritos com a história dos dois? Ela lia-lhe sempre uma carta e em todas essas vezes, os olhos de ambos brilhavam. Sorriam com cada vírgula em que ela já cansada parava. Já sabiam todas as cartas de cor. Mas mesmo assim não deixavam a noite chegar sem antes lerem um parágrafo. Era como que uma espécie de reavivar da memória a que eles queriam voltar a aceder em cada manhã. – Fomos tão felizes não fomos? Perguntava-lhe ele. – Fomos e continuamos a ser, meu amor. A vida juntou-os e eles tiraram o melhor sabor desse encontro. Amaram-se e mesmo quando se chateavam com pequenos nadas, dormiam colados um ao outro. Faziam-no para mostrarem que ali junto ao outro era o lugar preferido de cada um.