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Casa, afeto, calor, doces mimos e horas soltas de conforto. Memórias de infância e rascunhos eternos sobre o futuro. Não pensei que o tempo voasse tão depressa e que me visse obrigada a fazer malas antes do tempo. Não levo muito comigo, apesar de pesada a bagagem. Levo os sonhos que ficaram por te contar, levo os beijos que ficaram por dar, levo as lágrimas que não te deixei secar, levo as palavras que não te consegui dizer.

Para onde vou? Não sei. Não me assusta tanto o futuro desconhecido, como a consciência da perda do conforto do presente. Mas viver é arriscar e portanto, vou por aí no sentido contrário ao de casa. No sentido oposto a esse conforto do olhar que me vê por dentro. Vou fugir da facilidade de ter um ombro onde chorar, de ter alguém a criticar e ajudar a cada de decisão. Vou fugir do toque breve mas sentido, vou fugir das cores rosadas de um rosto a quem chamo mãe. Vou fugir do controlo e da necessidade de te ser transparente, vou fugir da constante preocupação. Não tenho botão para desligar os sentimentos ou as emoções, mas não posso dizer eternamente sim, quando sei que tenho que dizer não.

Não sei o que vai restar quando voltar. Não imagino o futuro desse modo. Sei que partir vai ser uma inevitável perda e simultaneamente um enorme ganho. Se o saldo será positivo para mim? Não sei, mas espero que sim.

Sair de casa custa, mesmo que dela não saia verdadeiramente. É quando fecho os olhos a todo o sofrimento, é quando tapo algumas partes do coração, é quando escolho as palavras antes de falar que estou a sair de casa. Não é por bater a porta que saio, já saí muito antes. Saí no momento em que deixei de dizer tudo, em que passei a ser seletiva na emoção, na conversa, nos gestos, nos olhares. Mal te olho nos olhos. Mal te encaro, consciente dessa omissão. Mas, caramba, sou eu quem precisa de voar.

Sou novata na prosa e nas grandes frases sobre a vida, mas uma coisa eu sei: contigo eu sinto-me em casa. Sinto-me protegida e amparada. Simplesmente, hoje, chegou o dia de sair. Se bato a porta não é porque não te ame, é só porque estou a tentar amar-me mais a mim.