Hoje levantei-me para morrer!

São seis da manhã, custa-me tanto levantar. Ando há tempos a tentar mudar este péssimo hábito de odiar a vida logo pela manhã.

Está frio, não tenho nada suficientemente quente para vestir, nem sou esquisita, uma porcaria qualquer de lã já me chegava.

Levanto-me, já a desejar pela hora de regressar. Ás vezes pergunto-me porque tenho tanta pressa, se no final venho para esta mesma cama, sozinha, comer uma qualquer porcaria comprada á pressa, e adormecer a ver televisão.

Afasto as cortinas, está um tempo bonito até, nem sei se isso me deixa feliz ou mais lixada comigo mesma. Tenho mesmo que mudar e começar a fazer alguma coisa pela minha vida.

«Ainda sou nova» é sempre o que repito para mim mesma para me sentir mais esperançosa. Penso sempre que ”amanhã” vou começar do zero, mas todos os dias me custa levantar.

Controlo a vontade de enfiar um cigarro na boca em jejum. Despacho-me a fugir, ponho um lápis nos olhos para não parecer tão deslavada, enfio um copo de leite pela boca e lá vou, a descer a rua e a fumar o bendito do cigarro. «Tenho que parar»

O caminho é sempre o mesmo, e enquanto o percorro lembro-me da minha mãe. Já há semanas que não lhe ligo, e da última vez que ela ligou eu nem atendi. Já sei que vou ter sermão, e não estou nada com esses apetites hoje. Logo lhe ligo amanha e digo que tenho andado ocupada no trabalho ou que tenho estado doente.

Olho para o relógio, só aqui estou há 40 minutos e já me apetece tanto ir embora.

Oiço um estrondo enorme. Juro que senti o chão a tremer! As pessoas ficam petrificadas a olhar para trás, mas cá eu continuo a lavar as chávenas que não me quero atrasar.

Outra explosão. Barulho. Muito. Desta vez apanhou-nos. Olho e não percebo nada. Sinto sabor a terra na minha boca. Ainda estou agarrada ao esfregão. Estou a sangrar.

As pessoas, tantas. Porque pisam os que estão caídos? Porque eles não se mexem? Há tanto sangue. Tantos gritos. Porque não consigo eu chorar? Quero chorar. O que se passa?

Olho e é como se eu não estivesse a viver aquilo. «Porquê? Porquê eu?»

Só penso no gosto a terra. Não me consigo mexer. Tenho sono.

Tenho saudades da minha mãe. Tantas.

PORPatrícia Bello
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