Hoje é um novo dia!!!

Escrevo.

No silêncio do quarto ouço o bater desconcertado de um coração que já não o sabe ser. Entre cordas partidas e notas perdidas, o ruído do homem torna-se miragem de tudo o que ontem julguei querer. E na solidão do corpo revejo um calor que nunca tive, um abraço que nunca chegou e um simples compartilhar que cedo se negou.

Mas não procuro solução no toque que não detive. Tampouco procuro problema no olhar que nunca regressou.

Em mim revejo o que na cegueira de ti deixei em tempos de reconhecer. No rosto quebrado recordo o sorriso que levaste naquela melancólica noite de verão, no dia em que o céu se esqueceu de ter estrelas. E mesmo com a dor que em meu peito cansado só levas, não conheço arrependimento ao passado.

Apenas vejo doçura nos efémeros momentos e ternura nos inocentes carinhos. O desgaste dos lábios, o áspero dos dedos e o romper dos braços serão as eternas testemunhas de um algo que não achou o começar.

Mas foi na loucura do sentimento, na audácia do querer e na estupidez do amar que nos desencontrámos. Dançámos na futilidade do acreditar e como vagabundos sem pousio vimos no tempo aliado. E fomos felizes enamorados na embriaguez do viver…

Na brevidade da união encontrámos os rumos que outrora tínhamos perdido. E na fugacidade do que fomos soubemos cedo o que não poderíamos ser. E sem penosos arrependimentos, tolas culpas ou atormentadas caras dissemos adeus a uma estrada sem dono. E separados, partimos juntos rumo a uma felicidade que nunca seria nossa…

Em dias de dor e noites de ausência só um porquê procurei. Em lágrimas taciturnas busquei uma resposta que julgo não teres. E foi nas mesmas que encontrei o mago brilho de um olhar que já não sabia crer.

Foste o pó da tormenta e a brisa da maresia.

Foste o pesadelo da razão e o sonho do coração.

Foste o que achei merecer sem nunca o querer.

Mas agradeço.

Foi na falta da tua luz que abracei a calma esperança da incerteza. E no fantasma do teu ser reconheci figura que não foi digna da minha luz abater.

Mas não é arrependimento, é mero reconhecimento do valor individual que nunca soube ver. Não exploraste as esgotadas dúvidas comigo ou conquistaste o medo bravio que à tua alma deu porto. Não viste em gestos amor e em palavras meras sílabas soubeste reconhecer. Viveste sem me dar mão e tristemente viveste sem me deixares te dar a mão. E desencontrados, lado a lado, caminhámos rumo à infelicidade do simples poder, temendo nos passos vazios o distante querer.

E ontem foi um nós.

Hoje é um tu.

Hoje é um eu.

Mas acima de tudo, hoje é um novo dia…

PORPaula Cerqueira
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