Histórias de amor fictícias: II – A poesia que fomos

Encontrámo-nos junto ao rio, eu e Madalena, vinte anos depois, cada um com suas rugas, cada um com suas feridas. No entanto, prometemos não nos beijarmos, como sempre, pelos mesmos descuido e vontades. Madalena era professora de Inglês em Paris. Eu era somente o mesmo louco por mulheres, embriagado ao fim da tarde, ignóbil e inútil.

Na altura citávamos Shakespeare de cor, brindávamos com cerveja, partilhávamos o mesmo cigarro e, por vezes, a mesma cama. Depois fui expulso da universidade por não pagar as propinas. Madalena continuou por Cambridge, eu voltei para Portugal. Trabalhei durante vários anos como recepcionista de hotel, no Rossio, em Lisboa. Depois de abandonar Cambridge, pouco contacto tive com Madalena. Escrevemos uma ou duas cartas. No final de cada carta citávamos repetidamente Shakespeare:

«What is love? ‘tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What’s to come is still unsure:
In delay there lies no plenty,–
Then come kiss me, Sweet and twenty,
Youth’s a stuff will not endure.»

Era o nosso poema. Depois beijávamo-nos.

Todas as quintas feiras Madalena vinha ao meu apartamento no fim das aulas, deitávamo-nos com a dorsal na cama, os pés na parede, e olhávamos o tecto. Líamos poemas do avesso, cada um uma estrofe, e ríamos em gargalhadas. Tínhamos o mundo ao contrário e a poesia sobre a cabeça. Odiávamos os mesmos professores e os nossos cacifos eram pegados. Nas aulas trocávamos mensagens em papeis voadores. Víamos filmes em VHS em encomendávamos noodles. Às vezes Madalena adormecia na minha perna e eu cobria-a com a minha manta. Nunca ousei tocar-lhe sem que ela o exigisse. Nunca conjugávamos o verbo amar a não ser em pequenos momentos de silêncio. Madalena sofria desgostos amorosos e eu pouco sabia sobre o amor. Gostava da sensação de dois lábios húmidos a misturarem-se, da poesia dos nossos olhares a desvanecerem durante o beijo. Era o nosso pecado, em infinitésimas eternidades de segundo. Não passava disso: Shakespeare, gargalhadas, e a poesia do nosso beijo.

Foi a primeira pessoa que me disse que literatura e poesia são coisas completamente diferentes. A literatura nasce na imaginação, a poesia dá para tocar – explicava-, ou achas que são as palavras que rimam?