Sou gorda sim, porque não?

Poucas mulheres afirmam que não se importam com o facto de estarem gordas, mas são poucas as que realmente o aceitam. Mas a realidade é que dizer que se está mais gorda, mais cheia, mais volumosa, não é fácil para ninguém. Principalmente quando se comparam os corpos das colegas com os nossos. Principalmente quando se olha para o espelho. Principalmente quando se tenta vestir as roupas que a gente um dia vestiu. E mesmo quando se aceita que estamos gordos ou que somos gordos não é fácil para ninguém.

Sempre pensei que fosse uma pessoa que nem fosse feia nem bonita, que fosse uma pessoa como todas as outras, que apenas passa-se de despercebida no meio da multidão. E o facto, é que me sentia confortável assim.
Nunca disse a mim mesma que era gorda, mesmo começando a sentir o meu corpo a ficar mais volumoso. Apenas pensava “se eu tenho as pessoas que quero a meu lado, se eu consigo seduzir um homem, é porque estou bem comigo mesma e com o meu corpo”. Até que foi aí que eu descobri. Olhei-me no espelho e reparei que o meu corpo estava bem mais volumoso que o normal. Apenas, me achei gorda de mais. Senti-me como se estivesse a ocupar mais espaço do que o habitual, e aquilo incomodou-me.

Andei meses a engolir aquilo, porque dizer que se é gorda é simples, mas dirigir aquilo e senti-lo na pele, deixa de o ser.

Eu olhava para as minhas amigas – sendo elas magras, gordas, pequenas, grandes, com cabelo pintado ou ao natural – e simplesmente não me conseguia encaixar. Não conseguia entrar na minha zona de conforto e de bem estar comigo mesma. Mas comecei a meter as infelicidades de baixo do tapete e a esconder-me nas roupas largas.

Mesmo assim ouvia comentários de familiares e de amigos sobre a gordura em excesso que eu tinha no meu abdómen. Mas não era fácil, afinal nasci no meio de uma sociedade que usa manequins como moda. E eu sei que quem falava apenas queria o meu bem, mas terá sido só isso… Ou era apenas gordofobia?

A nossa sociedade é montada num esquema muito antigo que se baseia no controle do corpo das mulheres. Porque se um homem for gordinho, é normal e raramente alguém comenta tal coisa. Agora se for uma mulher… Ouvem-se muitas facadas em apenas simples comentários.

O meu corpo é grande, sendo eu magra ou não. Mas o mundo gordofóbico dá numa de comentar o corpo de toda a gente. As pessoas simplesmente se sentem à vontade de opinar sobre o teu corpo, sem que tu sequer o peças.

O facto é que eu mudei, as pessoas mudam.

Eu comecei a trabalhar, a sustentar-me e a estar com pessoas que realmente gostam de mim pelo que sou e não pelo meu corpo. Fiquei livre, até livre para ser gorda se eu quisesse e o facto é que eu nunca me senti tão bonita como hoje sinto, com vinte anos de idade.
Precisei de 1 ano para me aceitar, de muito feminismo, de muito apoio de quem gosta de mim e de quem me aceita, mesmo, sendo gorda.

Se hoje eu me olho no espelho e quero mudar o que eu vejo ali, não é pelo meu pai, pela minha mãe, pelo olhar das pessoas da rua. É por minha exclusiva vontade. Eu, sozinha. Porque eu não tenho uma pressão externa que me obriga a me adequar a um desejo que não é meu. Se eu engordar 20kg hoje meus amigos vão continuar dizendo que eu sou linda. Tenho certeza. E eu serei. E o mesmo acontece se eu emagrecer 20kg.

Este texto não é para incentivar ninguém para mudar o seu corpo, muito pelo contrário.
Este texto é para mostrar que não devemos dar uma vénia para a sociedade e dizer que eles ganharam. Porque, se te sentes bem contigo mesma, não mudes por ninguém. Nem por opiniões e comentários de pessoas que não te conhecem verdadeiramente.

Hoje, eu sinto-me feliz e segura porque não é pelo meu corpo que eu conquisto amigos e inimigos. Não foi pelo meu corpo que eu conquistei o homem da minha vida, e, com quem estou há dois anos. As pessoas gostam de mim pelo que eu sou, simples assim.

O meu desejo é que as pessoas não sejam tão cruéis umas com as outras, principalmente desde a infância que essa é a fase de sermos felizes e não de nos sentirmos inseguros com nós mesmos ou com o nosso corpo.

Chega de meter minhocas nas cabeças das pessoas.
Chega.