A gente até que teve bastante tempo pra fazer dar certo…

Naquela terça, que você foi embora, eu pensei em ir pra perto da janela e gritar pra você voltar. Talvez porque eu ainda tivesse outras meias palavras entaladas na garganta e você, frases inteiras. Talvez porque eu provavelmente levaria uma multa por gritar demais na janela às 2:40 da manhã, e você sabia que a minha carteira estava vazia.

Eu fiquei esperando você voltar. Nem que fosse pela sua escova de dente, que ficou em cima da minha pia, ou porque ainda tinha meio pote daquele sorvete no freezer esperando a gente acabar com ele pra comprar mais dois.

Mas a verdade é que o sorvete venceu e semana passada lançaram mais três sabores da mesma linha. Eu tô aqui vendo uma foto sua, e o seu sorriso ainda deve tá fazendo muita gente por aí sorrir de volta. É inevitável, e eu sei disso. Já, já você se acostuma.

Se você tivesse voltado, pode ser que eu parasse de reclamar do barulho do secador e comprasse fones de ouvido. Ao invés de berrar uns palavrões, cantasse aquela música que você gosta, mesmo só sabendo o refrão. Levasse flores pra sua mãe no próximo almoço de família, achasse graça no seu sobrinho chutando a minha canela e até falasse pro seu pai que tô pensando em fazer Direito. Se você tivesse voltado, pode ser que eu compreendesse que aquela sua amiga tá passando por uma fase difícil e que não há problema dela te ligar dez vezes ao dia. E quando você chegasse emburrada e azedasse até o leite, pode ser que eu não falasse que você tá precisando se matricular numas aulas de ioga, mas te incentivasse a ser minha dupla no muay thai.

Você foi embora porque não havia mais tempo. Pra esfriar a cabeça, colocar uns parafusos no lugar, assar o bolo que nem chegou a ser feito. Sabe quando o despertador toca de novo e você sabe que tá atrasado, mas fica mais cinco minutos na cama? E aqueles cinco minutos passam, e você acrescenta mais cinco, porque acha que, mesmo assim, ainda vai dar tempo? Até que de cinco em cinco, a galinha faz até a ceia, o limite estoura e te faz sair amarrando o sapato no elevador.

A gente foi acrescentando, acrescentando, só que uma hora a ficha cai e bem em cima da nossa cabeça. E se não são cinco minutos a mais que resolvem uma noite de sono mal dormida, não seriam mais duas semanas, as férias de julho, o próximo aniversário, que resolveriam o que nós mesmos estávamos atrasando.

Você foi embora e levou o tempo que eu achei que a gente ainda podia ter. Mas não só as tardes de sábado que a gente passava tomando aquele sorvete, as manhãs de segunda movidas ao seu café e até aquela segunda, que virou domingo, porque era feriado, e teve pizza, ficaram comigo.

A gente até que teve bastante tempo pra fazer dar certo. E fez. A gente fez dar certo mesmo que com uma lista de coisas erradas, que eram tão boas. Porque errado mesmo seria enrolar numa história que ainda na metade ou nas primeiras páginas, vai saber, não via a hora de chegar no fim, pra começar outra.