Fomos tão cedo crianças

Fomos tão cedo crianças, sem o sabermos ser. Trouxemos apenas os vestígios dos sorrisos de quem não conhecia a felicidade. Trouxemos apenas a saudade que perdura, de tempos que não voltam.

Hoje, amanhã, até que os anos nos roubem a memória, somos um pouco dessa criança que restou. Essa criança ainda gatinha, ainda corre atrás das pombas no parque da cidade, ainda salta no pátio, ainda não se equilibra na bicicleta, ainda não sabe escrever o nome, ainda tem medo do mar, ainda não largou o colo da mãe. Essa criança, tenho a certeza, não morrerá. Morreremos nós, pela criança que não soubemos ser.

Tínhamos o sol na palma da mão, o vento sobre a cara, e os nossos problemas estavam à distância de umas lágrimas. Depois passava. Eram tempos em que as coisas mais simples nos roubavam um sorriso.

Do carinho aos sermões, das guloseimas ao pão-com-tulicreme, do carro-das-vacas à primeira bicicleta, dos primeiros passos aos primeiros toques na bola, do recreio à igreja, da brincadeira ao respeito, das semelhanças às divergências, fomos todos a criança que hoje é saudade em nós.

Éramos os astronautas do futuro. Alguns arquitectos, outros professores. E hoje quem somos? Quantos dos sonhos de criança trouxemos connosco? E quantos concretizámos? Quantos astronautas existem? E quantos pilotos? Éramos tão pequenos e com sonhos tão grandes. Ou será que com o tempo nos reduzimos à nossa pequenez? O mundo era tão grande e o tempo parecia não acabar.

Fomos tão cedo crianças, sabíamos lá…!