Fingi que virei a página…

Já superaste?
Já! (respondi a sorrir)
Disseste que nunca irias superar quando terminamos, mentiste.
Disseste que me amarias até morrer, e olha tu aqui, continuas vivo e sem amor para me dar.

Nesse momento o silencio pelágico apoderou-se de nós.

Menti, disse-me ele, pela primeira vez pude ver um raio de verdade brilhar naqueles olhos castanhos. Nunca superei e nem sei se poderei superar.

A verdade é que ele foi embora e levou com ele tudo o que me deu, fiquei vazia. Porque se eu sorria era porque ele me dava motivos para sorrir, se eu vivia era porque ele dava sentido à minha vida.

Estou perdida, mas não poderia deixá-lo saber que continuo aqui, e que todas as madrugadas o nosso livro se abre e os meus olhos, não querem mais nada, se nao relembrar, com o peito a arder de saudade, que ele foi o único homem que amei. Não virei a página.

Não entendo como é que depois de tanto tempo, ele permanece vivo em mim, quando a nossa história, ah a nossa história, já teve um fim, pelo menos para ele, porque fingindo sorrisos quando nos cruzamos e dizendo que superei tornou-se um hábito, mas as minhas madrugadas são cheias de lágrimas pesadas que o coração guardou o dia inteiro.

A madrugada é tudo o que eu não queria vivenciar, porque outrora, nessas madrugadas, partilhávamos risos, conversávamos por horas, fazíamos guerras bobas de “eu amo-te mais” e ele cantava para mim. Nunca lhe menti quando disse que não superaria, mas eventualmente tornei-me uma mentirosa, quase compulsiva, dizer que superei é uma mentira barbara até para mim, e eu daria o meu mundo para ouvi-lo cantar de novo numa dessas chamadas de madrugada.

Fingi que virei a página…

Porque continuo a sorrir-lhe quando tudo o que quero é desabar à sua frente, falar-lhe de todas as noites que não durmo, porque falta-me o seu corpo para aquecer o meu nestas noites geladas. Porque tento convencer-me de que é melhor para mim, quando eu bem sei, que o melhor para mim era te-lo comigo.

Já superaste?
(Será que posso gritar-te que NÃO, NÃO SUPEREI! Será que posso pedir-te que fiques comigo, se não para sempre, então somente um pouco mais?)

Não superei nem sei como enfrentar esta guerra que assola a minha alma dia após dia, uma guerra comigo mesma, uma guerra em que finjo ser quem não sou, e ele sempre me conheceu tão bem, porque é que hoje ele não entende que sem ele, eu só sei mentir?

É uma luta interior há qual não consigo por termo, é uma luta contra os meus próprios demónios, estou sozinha, ele deixou-me e por mais que eu finja que superei, eu sei! Posso até convencer os outros, mas jamais convencerei o meu coração. Porque palavras são apenas palavras, mas o sentimento? Do sentimento, não posso fugir!

Não sei virar páginas, e vou colocando virgulas nesta história, porque o final assusta-me, não sei superar!

Ainda espero que nos cruzemos novamente, quando esse momento chegar e ele me perguntar pela milionésima vez se superei, vou deixar que o silencio tome conta de nós e vou encarar aqueles olhos castanhos, talvez assim ele me decifre alma e me beije como pela primeira vez e fique.

PORLetícia Brito
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