(…) fechámos os olhos e finalmente, adormecemos todas as dores …

Naquela tarde de inverno, cinzenta e gélida como cadáver, carregada de cansaços, fomos ver o mar pela última vez. Sim, senti em mim uma voz oca que me dizia que esta seria mesmo a última.

Eu e tu, minha companheira de viagem do tempo que já passou e que enrugou os nos corpos, caminhámos juntos pela areia húmida, com marcas de pegadas de outros corpos que por ali passaram, arrastando-nos vagarosamente pelo peso da idade.

Sentimos o vento beijar-nos os rostos num tom de despedida e ouvimos baixinho o murmúrio das ondas, lavadas em lágrimas com bocejos de espuma pálida…

Tu, não proferiste um único som, de ti nada saiu, nem um grito mudo, nem um olhar cego, nada, apenas te mantiveste agarrada a mim, como uma concha à rocha, como se eu fosse a tua bengala, o teu amparo de vida finda, ou um qualquer objecto de adorno da tua querida sala de estar.

Continuámos naqueles passos minúsculos como que sentindo que algo nos agarrava as pernas. Chegámos finalmente ao lugar onde o mar abraça a areia, a fronteira, onde muitos sonhos se afogam, ou onde as aventuras começam.

Aquela massa de água imensa também chegava fatigada aos nossos pés. Por ali permanecemos imóveis por mais algum tempo ingrato, que teimosamente não esperava por nós. Fechámos os olhos e finalmente, adormecemos todas as dores…


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