Existe Inverno em ti, o calor está lá fora.

Existe agora um sabor amargo no teu beijo, as tuas mãos são feitas de vidro quebrado e o teu sorriso já não brilha como antes. Dizes que me amas e eu deixo que a tua mão caia gentilmente no meu joelho enquanto o teu olhar se afasta para o ecrã da televisão.

Faz-se silêncio.

Fez-se silêncio. Fizemos silêncio.

Já não é confortável este silêncio entre nós e tento quebrá-lo das maneiras menos originais que podem existir. Deixo cair o comando da televisão e peço-te que lhe pegues, porque está mais perto de ti. Digo-te que tenho fome e tu sorris apenas, como se fosse uma constante na nossa vida eu ter fome. Não questionas. Suspiras fundo e eu repito o teu suspiro, para que entendas que dentro de mim também existe um saco cheio de tudo aquilo que vamos guardando e guardando até não haver mais espaço.

Abraço-te como quem pede que soltes o sufoco no teu peito. Encosto a cabeça no teu ombro e sei que olhas para o horizonte esperando que aquele abraço termine. Lembraste quando nos abraçávamos a noite inteira? Acredito que existiam noites onde os nossos braços ficavam dormentes de tanto nos abraçarmos, mas quando acordávamos sorríamos por perceber que não nos tínhamos sequer soltado daquele abraço. Agora não adormecemos em abraço, sublinhamos que vamos ficar com o braço dormente ou queixamo-nos do calor que se faz sentir: “Antes era Inverno, agora está calor”, dizes tu.

Preparaste o café da manhã, sentamo-nos a ver e a rever as publicidades que passam na televisão, noutras alturas daríamos conta que os anúncios são os mesmos em cada intervalo, talvez soltássemos um qualquer comentário ridículo e talvez nos déssemos ao trabalho de mudar de canal. Talvez, noutras alturas. Mas não agora. Agora olhas para o ecrã com o olhar de quem não está aqui, nem em lado nenhum. Estás longe, tão longe que por vezes gostava que não estivesses aqui, para tentar perceber se estarias mais perto de mim assim.

Está sol, um sol lindo de verão e o calor entra pela janela como se fosse a varanda para o paraíso. Sabemos que toda a gente estará a passear de mão dada pelas ruas da cidade, a beber um fino na Praça, ou quem sabe a dormitar numa toalha de praia num lugar qualquer perto da água. Mas nós estamos aqui. Entre quatro paredes que parecem encolher a cada dia, e nem essa diminuição de espaço nos aproxima mais. Esta casa parece tão grande para nós, está tão cheia de tudo e tão vazia de ti, e de mim…Está vazia de nós, sentes isso?

Eras o ser humano com o sorriso mais brilhante do mundo, lembro-me que no início essa tua forma de estar na vida tirava-me do sério. “És capaz de me dizer como acordas a sorrir? É de manhã!”, dizia-te isso todos os dias ao acordar, mas fazias-me sorrir o resto do dia, sabes?, agora não acordas a sorrir, nem me beijas ao acordar, não passas a tua mão na minha cara de manhã, nem dizes que me amas só para me lembrar. Onde escondeste o teu sorriso, diz-me.

Existem muitos mundos mudos entre nós, existem silêncios constrangedores e gritos soltos em surdina. Peço-te por favor em silêncio, tu agradeces em voz alta. Pedes-me que vá e eu vou.

Talvez seja agora Inverno em ti e em mim, dizes que está calor, mas não o suficiente para derreter a barreira gelada que se ergueu entre nós.