Excesso de Velocidade!!!

Naquela noite de quarto crescente, fui dele.

Foi ao meu encontro, já atrasado. A pressa de querer fazer tudo bem, estar cheiroso e irresistível atrasou-o.

Faltavam quatro minutos e vinte e dois segundos para nos abraçarmos, quando me avisou que já vinha a caminho. A noite estava destinada a ser nossa e nós um do outro.

Cheiro bom o dele. Tinha valido a pena aquele compasso preciso e exacto de minutos e segundos, com a barriga a engaiolar borboletas e outros animais com asas.

Não o vi bem, virei a cara. Ele notou: “menina bonita, não olhas para mim?”.

Deve ter sido a primeira vez que alguém não o mediu, centímetro por centímetro.

Não sei se me escondi ou se era o medo a gritar comigo. Nem sempre sou medrosa. Acho-me até bem corajosa, mas ali, naquele instante, só precisava de me refugiar. Não havia zona de conforto, apesar do carro ser uma bomba. Ele outra. E eu também.

Estou habituada a rebentar, não que rebentem comigo nem à minha frente. Ele ali estava, encantado, a falar-me dos caracóis me que vivem no cabelo, do rasgado que é o meu sorriso… Ia-me desarmando, sem o notar, à medida em que falava com sotaque.

Adoro sotaques e ainda não lho tinha dito. Nem que o cheiro dele era bom. Ou que quase me sentia uma Cinderela dos tempos modernos, em que a abóbora foi trocada por um carro preto e o príncipe não precisou de me procurar num reino inteiro de sapato na mão para estar comigo.

Pegou-me, no teatro, para jantar mas antes andámos às voltas no carro. Talvez fosse para me deixar tonta. Não percebeu que o cheiro era suficiente para me estontear, almarear e desarmar. Não resisto a cheiros bons nem a quem me fala baixo ao ouvido.

Já ele não me resistia. A mão – ou as duas – estava(m) quase sempre a sentir-me. Só nos separou a mesa do jantar.

Levou-me a ver o reflexo da lua no mar duma praia. Protegeu-me do frio e explodiu a bomba. Abraçou-me como se estivesse preparado para fugir comigo para parte incerta, como quem vinca e quer deixar marca, como quem não quer soltar. Abraçou-me uma e outra e mais outra e outra, até se cansar.

Nem sempre correspondi ao abraço. Não, era pequena demais para tanto. O príncipe das outras, a lua, o mar, o frio e os arrepios.

Falava entre abraços. Ordinarices. Eu sorria. Ateámo-nos fogo. Cercou-me com os braços num canto no fundo da escada de pedra, com as ondas a rebentar como música de fundo, voltou a desarmar-me ao falar-me ao ouvido e tomou-me de assalto. Era dele a partir dali.

Regressámos ao carro antes de nos entregarmos. Nada havia a fazer. Nós escolhemos que naquela noite, nos havíamos de saborear, comer e beber.
Assim o fizemos, entre o arvoredo, as janelas dos prédios e do carro cujo tejadilho nos protegia do céu.

Tivéssemos passado em alguma operação stop às relações e seríamos multados por excesso de velocidade.

Foi assim que nos conhecemos. Foi este o nosso primeiro encontro. Primeiro jantar. Primeiro passeio. Primeira entrega.

Deixei-lhe uma marca, ele é-me um marco.

Repetiremos. Ainda bem.