Eu fui a outra…

Eu fui a outra. Pela primeira vez na minha vida eu fui a outra. Nos dias em que eu fiquei sozinha a morrer de amores a olhar para aquela última mensagem e com aqueles corações nos olhos, ele estava com outra mulher, com a única mulher. Na casa onde ambos habitam. Na casa onde estão agora, neste preciso momento em que eu escrevo. Local onde ambos sorriem, brincam e fingem que se amam… Enquanto eu estou aqui. A lamentar-me.
E o pior? É que ele está lá… A fingir que se importa comigo. A tentar arranjar uma desculpa qualquer para vir ter comigo. Para tentar desculpar-se pela segunda vida dele. Como se algum dia eu fosse aceitar essas desculpas. Como se eu fosse burra a esse ponto.

Eu fui a outra. Eu pertenci a um triângulo amoroso onde julgava que existisse uma dupla, mas a verdade é que eu estava sozinha.

Todos os dias tu o esperas. Sentada no sofá a ver televisão enquanto pensas que ele está a trabalhar. Preparas-lhe o jantar quando ele regressa a casa. Perguntas-lhe como foi o dia e olhas-lhe com ternura pelo seu ar cansado. Mas depois de um dia de trabalho, ele ainda vai sair. E tu não notas nada. Acreditas que ele vá beber um copo com os amigos e que isso não é nada de mais. Pois, mas ele vem ter comigo. Ele vem beber um copo comigo. Vem trocar olhares comigo. Vem insinuar que quer sair dali o mais rápido possível. Mas a melhor parte é que eu nunca o fiz. Sempre fui mais forte que isso. Mas os olhos dele confundem. Parecem de uma sinceridade. Transmitem uma serenidade. Todas as vezes em que ele, no meio do trabalho, foi ter comigo só para se certificar que eu estava bem. Que me levou o casaco quando percebeu que estava demasiado frio. Que me fez festas na orelha porque sabia que isso me acalmava. Que pediu que descansasse para repor energias.
Ele é um cabrão e eu acredito que tu saibas disso. Ele é um cabrão e hoje eu vou ter de olhar para a cara dele. Fingir que nada disto me afecta. Mas a verdade é que dói. Dói saber que não sou a única.

Eu só te queria pedir desculpa. A ti, sim. A ti que és intitulada por mulher da vida dele e que ele todas as noites faz um desvio de ti. A ti, que julgas ter um bom homem na tua cama todas as noites e só tens um gaiato que não sabe o que quer da vida. A ti, que um dia não passas mais na porta pelo tamanho dos abanicos. Desculpa, mas eu fui a outra. Sim, fui. Não sou mais. Mas sabes o pior? Mais virão. Sim, “não és a primeira nem hás-de ser a última”. Lamento…