Estranho Estrangeiro…

Vanessa ainda não quer acreditar nas voltas que a sua vida deu, e em tudo aquilo porque passou no dia anterior. Encontra-se fechada no quarto desde que a tinham trazido a casa, no dia anterior, pela hora de jantar, não sabe há quantas horas não dorme nem descansa, há quanto tempo se encontra sentada na cama de olhar perdido além da janela. Não tem forças para pensar, para falar, para chorar ou reagir, só queria aliviar o peso que sente dentro do peito; mas por enquanto parece algo difícil.

Mentalmente, faz curvas e contracurvas na sua memória, tenta perceber se o amor é algo assim tão importante que mereça realmente a pena, infelizmente, não tem tido sorte no amor. Não compreende o que poderá ter visto naquele rapaz, porque se tinha apaixonado por ele. E revolta-se. Revolta-se no seu interior, o que acaba por despoletar ainda mais o desespero e a dor que sente, o desapego e a angústia. A fragilidade.

De repente, lembrou-se do seu grande amor: o Tiago. E a raiva apodera-se dela, conheciam-se praticamente desde a escola primária, eram os melhores amigos e tinham estudado sempre juntos; no final do secundário, a evidente separação – por quererem seguir caminhos diferentes – trouxe ao de cima todo um conjunto de sentimentos até então adormecidos. A amizade e a ligação forte e cúmplice que os unia, num repente tinha-se transformado em amor, numa altura em que parecia que nada seria como dantes. Sem perder tempo – numa tarde Primaveril em tudo diferente de todas as que tinha vivido – Tiago convidou Vanessa para um café e um passeio a dois. Inesperadamente, declarou todo o seu amor à amiga, que ficou sem saber o que fazer e o que dizer, acabando por lhe confessar também tudo aquilo que sentia. Por entre pedidos de namoro, e beijos apaixonados, há muito desejados; ficaram mais unidos do que nunca, apesar da incerteza que o futuro lhes reservava.

A faculdade iniciou-se e à medida que o tempo foi passando, a distância que os separava tornou-se cada vez maior, o que sentiam tão intensamente um pelo outro, foi esmorecendo dando lugar a novos sentimentos, experiências e emoções. Ambos foram fazendo novas amizades e muita coisa se renovou: nomeadamente a maneira de pensar do coração.

As férias de Verão chegaram, Vanessa e Tiago passavam quase sempre as férias juntos; mas naquele ano foi tudo diferente. Ambos já tinham os seus grupos de amigos e por isso decidiram passar as férias separados; foi o primeiro grande abalo sobre aquilo que tanto os unia. Viram-se praticamente sem tempo poucos dias antes do regresso às aulas, Tiago estava diferente: preocupava-se mais com os novos amigos da faculdade e com a nova amiga especial do que com ela, deixando-a cheia de dúvidas acerca daquilo que ele poderia sentir verdadeiramente por ela. Para Vanessa, o Tiago já não a amava como dantes, agora ele via-a como uma simples amiga e os seus receios vieram mesmo a confirmar-se na altura do Natal. Ele tinha-se apaixonado por outra pessoa: uma colega da faculdade e decidiu contar tudo a Vanessa, não queria continuar a enganá-la por muito mais tempo. Não era justo, ela não merecia, por muito que ele amasse outra pessoa e lhe custasse ter que a magoar, tinha mesmo que o fazer.

Vanessa ficou destroçada com a decisão abrupta do Tiago, nem conseguia acreditar que ele estivesse a ter coragem para lhe fazer uma coisa daquelas depois de tudo o que tinham vivido e passado juntos. Ficou mesmo incrédula e com o coração desfeito em mil pedaços, não sabia o que dizer e o que pensar. Amava-o demasiado para o perder assim daquela maneira – tão inesperada quanto dolorosa – para outra pessoa; durante a dura e curta conversa que tiveram, Vanessa olhou-o nos olhos e perguntou-lhe porquê: era só isso que queria saber. O que o tinha levado a tomar aquela decisão – para ela tão precipitada –, só queria um motivo forte e aceitável para tentar compreender o porquê daquele desfecho. Mas Tiago não lho soube dar; disse-lhe simplesmente que o amor que os unia tinha esmorecido com o passar do tempo. E assim foi…

Depois daquela última conversa, Tiago e Vanessa nunca mais se voltaram a ver, nem voltaram a falar; se para ele parecia estar tudo esclarecido, para Vanessa as coisas já não eram bem assim. Iria existir sempre a dúvida, iria existir sempre algo que nunca iria ficar bem esclarecido.

O mundo de Vanessa tinha – pura e simplesmente – roído como um autêntico castelo de cartas: tinha perdido o seu melhor amigo e o grande amor da sua vida para uma mulher que não conhecia de lado nenhum e que nunca iria conhecer o Tiago tão bem como ela conhecia. Era uma situação inaceitável, nunca iria conseguir nem saber como geri-la.

E do dia para a noite, Vanessa mudou radicalmente de atitude e comportamento: fechou-se em casa, isolou-se dos amigos, abandonou a faculdade, deixou de sorrir e de ser alegre, divertida e extrovertida. Desde que tinha perdido o Tiago que nada parecia fazer sentido para ela, não tinha vontade nem estímulo para fazer nada daquilo que tanto gostava de fazer quando o Tiago existia na sua vida; agora, a solidão era a sua melhor amiga e conselheira e nunca, jamais, ninguém poderia mudar isso.

Lembrou-se de criar um blogue na internet onde pudesse desabafar as suas mágoas e desamores, há muito tempo que lia os blogues dos outros e era algo que já andava a pensar há algumas semanas; mas com a exigência da faculdade e os muitos trabalhos e frequências que tinha – que a obrigavam a dedicar quase todo o seu tempo livre ao estudo – faziam com ela fosse adiando sempre esse passo.

De repente, deu consigo a adorar ter uma espécie de diário online, onde podia escrever e desabafar o que bem lhe apetecesse, sem ter ninguém a questioná-la nem a julgá-la, afinal de contas ninguém a conhecia nem sabia nada sobre ela no mundo virtual. Num ápice, o blogue começou a ter cada vez mais visitas e comentários de pessoas que gostavam daquilo que ela escrevia e que se identificavam com a sua situação – isso acabava por diminuir a sua dor e aquecia o seu coração despedaçado.

Foi através do blogue que conheceu o Fábio, um comentador muito fiel e assíduo da sua página da internet, com quem começou a construir uma amizade invulgar; mas especial. Das conversas assíduas através de comentários, passaram depressa para a troca de emails e depois para o envio de várias mensagens escritas através do telemóvel. Aquela troca imprevista e imprevisível de correspondência durou vários meses, até ao dia em que Fábio lhe propôs que se encontrassem pessoalmente para um café e para – finalmente – se conhecerem melhor. Havia um entusiasmo peculiar de parte a parte. Vanessa – ainda frágil e com as emoções num verdadeiro reboliço – aceitou o encontro, que acabou por acontecer dois dias depois numa esplanada. As expectativas pareciam não ter ficado aquém do esperado: cara a cara, eram tudo aquilo que sempre tinham imaginado.

Tomaram o café, conversaram, riram, partilharam: histórias, gostos pessoais, sonhos, objectivos e muitas outras coisas. Mas Vanessa não fazia ideia que Fábio tinha outros planos, perante o desenrolar do encontro, decidiu arriscar e convidar à nova amiga para irei até sua casa, aproveitavam e davam um curto passeio a pé. Ela – ingénua, simples e de cabeça completamente nas nuvens perante o carinho e atenção do novo amigo – aceitou de bom grado.

Já dentro de casa de Fábio – completamente sozinhos –, Vanessa conheceu um lado de Fábio até então desconhecido: possessivo, dominador ciumento, frio e insensível. Fábio beijou-a à força, fazendo com que ela ficasse completamente submissa e não tivesse oportunidade de resistir às suas duras investidas. Depois dos beijos forçados, obrigou-a a envolver-se sexualmente com ele, deixando-a sem capacidade para se defender ou para argumentar o que quer que fosse. Maltratada, violentada e magoada física e psicologicamente, Vanessa só teve tempo de fugir daquela casa na primeira oportunidade que encontrou: correu o mais que pôde até encontrar um táxi que a levou até casa. De maquilhagem borratada, roupa rasgada e alma e coração feridos, Vanessa não foi capaz de proferir uma única palavra. Não comeu, e fechou-se de imediato no quarto até àquele momento.

Depois do duche quente que tinha tomado, continuava a sentir-se suja por dentro e por fora; alguém bateu à porta do quarto. Era a mãe, acompanhada pelo Tiago visivelmente preocupado e em pânico, entrou de rompante no quarto e abraçou-a imediatamente. Vanessa emocionou-se com o gesto dele.

E sem tempo, aquele abraço tornou-se eterno.

PORAna Ribeiro
FONTEEscreviver
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