És especial para mim!

Quando o carro se afastou, fiquei sozinha na rua. Podia ter voltado para casa imediatamente como era suposto, mas faltou-me a coragem. Em vez disso, comecei a andar até que dei por mim no sitio onde gostávamos de ir, o nosso sitio especial. Fi-lo inconscientemente, mas a verdade e que precisava de te sentir perto de mim mesmo sabendo que já não estavas por perto. Permaneci inerte.

A noite já caiu, o frio é cada vez mais evidente e começa a penetrar-se nos ossos. Levantei-me e segui caminho. Quando chego à porta do prédio começo a sentir-me nervosa. Achei estranho, porque afinal de contas aquela era a minha casa, apenas por mais uns dias, mas era a minha casa.  Abro a porta, dirijo-me ao elevador e subo até ao quinto andar. Ponho a chave na fechadura e rodo-a várias vezes até que a porta se abra.

Num dia normal, teria de tocar à campainha porque alguém deixava a chave do lado oposto da porta, mas este não era um dia normal… As luzes estão todas apagadas, e é quase impossível distinguir as divisões. Acendo as luzes e dou de caras com uma sala despida. Olhei a minha volta e não consegui conter as lágrimas. Caíram de tal maneira que fiquei sem força. Não era só a casa que estava vazia, eu também estava. A realidade finalmente caiu no meu colo. A partir de agora, quando chegar a casa… a tua chave não vai estar atrás da porta. A tua prancha de surf não vai estar encostada à última janela da sala. O teu casaco não vai estar em cima da cadeira. E tu? Tu não vais estar lá para me receber quando chego a casa. Não quero ver o resto da casa, mas vou ter de o fazer.

Olho para o telemóvel e já se passaram 4 horas desde que foste embora…Tenho uma mensagem tua que diz: “Quando estiveres sozinha, vai ao meu quarto e abre a segunda porta do armário! Mas só quando estiveres sozinha…” Sabias bem que se tivesses dito mais cedo eu não ia resistir a espreitar. Fui ao teu quarto e fiz o que me pediste.

Percebi que eras especial para mim, quando começaste a deixar mensagens na minha porta porque sabias que só eu as ia ler. Comecei a fazer o mesmo, era uma forma de te dizer o quanto gostava de ti e tu era o único que ouvia. Dentro do armário encontro um envelope colado com fita-cola. Abri-o e li-o com toda a atenção que uma mensagem tua merece. Sentei-me na tua cama… ainda cheira a ti sabias? Ao ler as primeiras palavras não consegui conter, mais uma vez, as lágrimas. Por entre as lágrimas também me arrancaste muitos sorrisos e algumas gargalhadas.

Lembro-me daquele dia de Agosto em que a dona da nossa casa me ligou e disse que o quarto era meu, se estivesse interessada e que até já tinha arranjado mais três pessoas para partilhar casa. Quando me disse que ia ser a única rapariga, pedi-lhe mais um dia para pensar. Quando desliguei o telefone, lembro-me de não ter ficado minimamente feliz com a notícia. Surgiram muitas dúvidas e desconfianças. Por outro lado, sabia que encontrar uma casa com as mesmas condições naquele sitio ia ser praticamente impossível,por isso, decidi arriscar. Hoje olho e penso que foi a melhor decisão que tomei.

Não vai ser surpresa nenhuma quando te disser que não foste o que mais gostei dos três. Não tinhas a “simpatia descarada” que faz com me sinta confortável logo no principio. Foste extremamente educado e isso bastou. A verdade é que o tempo foi passando e mostraste-me que és muito mais do que só educado. Fomos descobrindo gostos comuns, foste mostrando o teu sentido de humor bastante peculiar, mas assina de tudo sempre me respeitas-te como mulher e não me tratavas como uma simples colega de casa. Primeiro tive de me habituar a uma vida contigo, agora, por muito que me custe, vou ter de me habituar a uma vida sem ti…

Vai ser difícil chegar a casa e não te ter lá para me receber, dormir numa cama só para mim, ver a tua cara pelo computador, não te ouvir cantar enquanto fazes o jantar, não te mandar calar calar enquanto vemos filmes, não passear pela cidade contigo. No entanto acredito que quando te for visitar ou ao contrário, vai ser ainda mais especial. O facto de não te trazer pela mão, não quer dizer que não te traga no coração.

PORMaria Silva
Partilhar é cuidar!