O elogio perdido do amor puro!

Só irei escrever sobre isto uma só vez. Portanto, continuem a deslizar no mural. O que vem aí pode assumir um comportamento de tal forma neurótico que faz soar a um doente mental de perfeita saúde.

Por alguma razão, sentimos uma necessidade visceral de definir tudo, por uma questão de orientação na vida, acho, uma vez que já andamos demasiado desorientados com muita coisa sobre a qual não temos orientação ou direcção alguma mas que ainda assim nos desorienta.
Adiante.
Então, sou impelido a considerar, ainda que seja por instantes, que há coisas que não concebidas para serem entendidas. E mais difícil ainda se torna conceber o facto de que são profundamente, repito, profundamente, sentidas tais coisas mas que carecem de uma explicação que vai bem além do horizonte do racional.

Falo-vos do amor que não esmorece. Quando olho à minha volta, vejo fotos de momentos, fotos de sorrisos, fotos de contemplação, fotos de abraços, fotos de tristeza, mas não vejo o elogio do momento puro. Parecem felizes mas não lhes vejo a verdade. Parecem tristes mas não lhes sinto o silencio.

Já ninguém se apaixona por ninguém porque não existem referencias, momentos de puro êxtase, de puro “bater no fundo”. E como já dizem na Fisica, sem os extremos, não sabemos por onde andamos nesse intervalo. Porque até os extremos em que vivemos são demasiado artificiais. Somos camaleónicos porque dá jeito. Não vá alguém perceber o medo latente por completo em cada um de nós e ficarmos de vez sem extremos.

Já ninguém aceita amar sem uma razão. E não é uma razão qualquer. É uma razão passível de ser combinada. Com hora e dia marcados.Tornarmo-nos toleráveis uns aos outros, porque isso não exige (muito) compromisso. Portanto, os amigos do peito são aqueles que ficam nos primeiros 5 numero do dial do telemóvel, porque são as pessoas para as quais ligaria para casos de emergência, pensamos nós.

Passo agora a escrever aquela que acho a melhor descrição alguma vez escrita.
“Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor?”

E acrescento, já ninguém se entrega sem medo? Já ninguém se compromete para com alguém, amigo, namorado, até mesmo a familia? Vivemos assim tão asfixiados em medo que tememos deixarmo-nos prender por vontade de nos entregarmos a alguém, temendo perder a liberdade?

Liberdade é também amor. Não está para consumo somente. Está para assumir que se sente, que se vive. E quando vivida, aí sim surge aquele brilho, a verdade das fotos dos sorrisos, das fotos dos momentos a dois, três, quatro… essa é a beleza de tudo isto.

Amar acarreta riscos? Claro que sim, mas o que neste mundo não acarreta riscos? Prefiro sofrer pelo que vivi do que ficar com a cabeça em espiral a pensar no que poderia ter sido. Prefiro arriscar sabendo que optei pelo amor do que imaginar num pseudo-conceito de amor que nunca o foi. Porque o amor exige ser vivido e não para subsistir até à insuficiência cardíaca porque decidiu antes amar com o cérebro.

E agora o clímax da coisa.

Acho piada que as pessoas vivam mais ou menos confortáveis de que um dia vão desta para melhor e no entanto conseguem viver nos seus próprios pés e viver nesse corpo vagabundo que nada sente porque decidiu colocar o amor numa prateleira à porta de bala, pensando que não tem prazo de validade, e que um dia… yeah, maybe!

E no entanto, o amor não foi feito para perceber mas para acontecer. É a outra beleza de tudo isto. Como que faz acontecer algo que não se percebe assim tãoooo bem? O amor não é universal, o amor é uma espécie de ADN pessoal feito de cada relação que estabelecemos, é feito de certos emparelhamentos configurados segundo padrões que nos fazem expressar o que de melhor somos, o que de mais genuínos podemos ser, o que de melhor levamos connosco à medida que o nosso corpo se deixa esmagar pelo tempo. Mas a virtude de tudo isto é que a memória não perece se os momentos tiveram sujeitos e sobretudo muitos predicados, daqueles que nos faça dar uma gargalhada que vem bem cá do fundo das entranhas, que nos faça chorar até os pulmões não conseguirem mais expandir, ate ao momento em que nos sufocamos na nossa própria experiência de felicidade. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente que esse momento tenha ocorrido alguns perdido na nossa vida.

A mente e coração entendem-se no amor vivido genuinamente.
O coração guarda a memória. E a mente faz disparar o coração. A mil. Ou talvez mais.
E só assim concebo que o amor possa durar uma vida inteira.
O momento em que me torno infinito.


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