Ele partiu

Naquela manhã estavas diferente, estavas estranho. Algo no teu olhar me dizia que não estavas bem. Tentei-te abordar de 1001 maneiras, mas sem nunca obter a resposta que pretendia, a verdadeira.

Andavas à volta no quarto, à procura de não sei o quê. Parecia que estavas a ignorar-me, nem vias que estava bem ali, a tentar ajudar, mas havia uma enorme barreira entre nós, que ambos andávamos a construir nos últimos tempos.

Senti-te vazio, pela primeira vez. Apesar de todas as oscilações que tivemos, sempre te vi como dono de ti, com um sorriso, embora por vezes fosse de tristeza.

Mas tu não eras tu. Mas que poderia eu fazer? Eu estava a tentar, tu é que não.

O dia continuou. Cada um no seu trabalho, na sua vida. Não tive uma única tentativa tua de me contactar, mas dei-te espaço. Não era isso que tu precisavas?

Cheguei a casa a precisar de um abraço, de um carinho, dos teus. Mas ainda não tinhas chegado.

Comecei a tratar de mim, mas rapidamente me apercebi que algo estava errado. A casa estava sem ti, inabitada, vazia, incompleta. Já não estavas presente, há muito tempo.

Procurei-te por todo o lado. Procurei as tuas roupas, os teus objetos. Procurei-te por todo o lado. Nas tuas revistas, na tua escova de dentes. Tudo tinha desaparecido.

A dor no peito era demasiado forte. Sentei-me a um canto, ainda incrédula, a observar todos os pormenores, procurando um sinal, uma pista, algo que te fizesse voltar, mas não vi.

Tinhas partido nesse dia, mas a verdade é que já tinhas ido há meses.

Liguei-te, infinitas vezes, mas nada. Era como se nunca tivesses existido. Como se fosses apenas uma memória de um passado longínquo. Só queria ouvir a tua voz, a admitir uma brincadeira, a entrares por aquela porta que tantas vezes tinhas entrado e saído.

Encarei a realidade. Tinhas desaparecido, tinhas-me abandonado. No fundo, soube que já o tinhas feito, mas apenas agora tinhas tido a coragem de partir.

Agora, passados três meses, a casa está cheia, novamente. Falta-lhe o teu cheiro, o teu toque pessoal.

Está cheia de mim, pois aprendi que basto eu, inteira e feliz, para a casa estar completa.


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