Ele é um agressor!

Diariamente eu falo com mulheres fantásticas, todas com suas dores, com seus amores, com seus sonhos. Todas dividem um pouco de suas vidas comigo, a espera de que eu possa dar voz a tudo o que está engasgado e elas não conseguem dizer. Aproveito para agradecer a confiança, onde sempre me emociono com a história de cada uma de vocês e me dá razão para seguir.

Conheci uma história em particular, uma história de uma guerreira, muito jovem é verdade, mas que conheceu uma dor tremenda e que soube sair da maneira como a maioria das mulheres não sai, pela justiça. Ela denunciou seu agressor. Pôs um fim ao que já não era mais amor. Para preservar sua identidade, vou chamá-la de A.

Ela namorou com ele por dois anos, eram inseparáveis, quase moraram juntos. Por mais cuidados que A tivesse com a relação e com ele, cuidando inclusive de seu filho, ele não percebia desta forma. Sempre a acusava de não ser honesta, de o trair, de o enganar. Os agressores agem assim, nos transformam em mulheres imperfeitas, muitas vezes nos fazem crer que somos erradas de alguma forma e que precisamos nos ajustar.

As brigas eram brandas. Com o tempo piorou. Vieram os xingamentos, as ameaças, os empurrões,ele começou a levantar a mão para ela que nunca revidou. Chorava em silêncio, desejava em segredo que tudo aquilo mudasse, que a desconfiança passasse, e que pudessem viver a relação em paz. Contudo, um dia A percebeu que aquilo tudo tinha de mudar, ela não podia mais aguentar os insultos e todo aquele desamor.

Ela terminou a relação, um mês após o fim, chegou a briga que mudaria para sempre a história de A. Ele a encontrou xingando como sempre, fazendo os mesmos insultos. Ela deu-lhe um tapa na boca, implorou para ir embora. Ele não se deu por vencido e a arrastou até a loja dele, pois queria que ela provasse de alguma forma que nunca o havia traído. A fez de tudo, gritou, chorou e ele sempre a jogar no chão para que não saísse da loja. Trancou a porta e foi pegar o celular de A que estava na cintura. Na luta, A caiu no chão, bateu com as costas umas três vezes. Ela que nesta altura estava com outra pessoa, tinha o contato dessa pessoa no celular, seu agressor viu, a xingou, segurou pelo pescoço e bateu sua cabeça na parede. Abafava sua boca com a mão para que não ouvissem seus gritos.

Foram momentos de terror inexplicáveis, ela não conseguiu traduzir para mim, estava nervosa, emocionada e desejando mais do que tudo que ao contar a sua história para alguém, ela pudesse se livrar do terror que viveu. Seu maior desejo era esse, tirar essa dor de dentro dela.

Hoje ela sabe que nunca foi amor, ele dava liberdade, ao mesmo tempo que a acusava. Estava sempre em busca de fatos que a colocassem como infiel, quando na realidade A acabou descobrindo que quem a traia era ele. Agressores são assim, fazem violência psicológica, nos fazendo de loucas para os outros, e para nós mesmas.

Ela hoje teme não conseguir mais confiar em ninguém, embora me pareça uma mulher bem determinada, sente medo, está deprimida em busca de expulsar toda dor de si. Ela também luta para fim do processo judicial contra ele, mas principalmente que ele pare de rondá-la. Infelizmente, apesar da medida restritiva, ele esta sempre por perto.

Eu sei que temos este ímpeto de crer que nosso amor pode suportar, pode curar, pode mudar o outro ou a relação. A verdade é que apesar dos sentimentos nos cegarem, nunca, nunca mesmo perdoe alguém que te agrediu, só tenderá a piorar. Quem te ama não te agride, quem te ama sofre quando você sofre, quem te ama confia porque simplesmente não existe relação sem confiança.

Por outro lado mulheres em situação de agressão se culpam, se culpam por aceitar, se culpam por terem suportado, se culpam por não terem visto antes. Esta culpa não é nossa. Precisamos deixar claro que nada justifica a violência, não importa o que façamos.

Tampouco devemos permitir que a violência tome conta dos nossos sonhos, da nossa capacidade de amar novamente. Temos que passar por ela, procure ajuda, lute. Você não está só. Não está só na luta, como também não é a única mulher a ser agredida. Infelizmente a grande maioria de todas nós já viveu alguma forma de agressão. Quem nunca foi chamada de louca?

Vivemos uma era em que lutamos pelo reconhecimento de nossa identidade feminina atrelado a um empoderamento, que é vital para nós. Ao mesmo tempo em que ainda somos objetivadas por tantos homens, que nos estupram, matam, violam os sonhos, violam o nosso melhor.

Quero dizer para você A, que eu sinto sua dor. Eu estou com você e saiba que a partir de hoje mais mulheres estarão com você. Você não precisa do pedido de perdão dele, você não precisa do arrependimento. O que nos é vital é sabermos dar um basta, é sabermos usar os instrumentos que temos a mão e fazer justiça. Você foi e é guerreira, você não se calou, enfrenta com toda força e de cabeça erguida sem se curvar as chantagens emocionais e nem a tentativa dele de te desacreditar. Porque todo agressor nunca assume o que fez.

Honestamente, eu queria poder entrar nos lares de tantas mulheres que vivem o mesmo que você, de forma mais sutil ou mais severa e dizer: esta aqui a minha mão, eu vou chorar junto e vou denunciar junto. Sei que por conta do seu processo na justiça não pode revelar detalhes, assim como não posso revelar sua identidade para não te prejudicar.

É por causa de histórias como a sua, de pessoas como você e tantas que me procuram que eu escrevo. Porque eu vejo tantas vozes ainda silenciadas por essa sociedade louca que não sabe o que fazer com nossa voz. Eu escrevo porque não consigo tocar em todas vocês, mas de alguma forma eu preciso honrar a confiança que depositam em mim.

Eu escrevo na esperança louca de que um dia histórias como essa sejam a exceção, e não a regra. Para que uma mulher que tenha seu braço puxado com violência em uma festa saiba que ali esta um agressor e ela deve sair disso. Para que a mulher não viva em busca de um relacionamento porque lhe ensinaram que seu destino é casar e ter filhos. Escrevo para a mulher que deve ser sua única dona, e que em sua completude deseje viver bons momentos com alguém, seja homem ou mulher.

Nenhuma forma de violência é aceitável, nenhuma forma é justificável. Quem te ama não bate, não humilha, não te aprisiona em culpa. Quem te ama, te liberta!