Ela foi embora…

E ela vai embora. E diz isso com um sorriso. Mas eu sei que não é de felicidade, ela não pode estar feliz por ficar sem mim! É de nervosismo, estão aqui tantas pessoas no meio de nós… Ela ficou nervosa. Foi por isso que sorriu…

E agora também eu já com nervos, afasto-a. Bem no momento em que ela me abraça para se despedir. Para sentir o meu cheiro uma última vez. Para sentir a minha proteção. Para sentir o meu toque. E eu afasto-a… E o arrependimento cai sobre mim no momento a seguir. E dói. Dói tanto, porra! Dói saber que não me despedi dela. Que a deixei seguir o caminho dela sem o beijo na testa que a protege. Sem o abraço mais protetor do mundo. Sem a minha presença.

Estou no carro. As lágrimas teimam em tentar cair. Mas não, eu não vou chorar. Porra…! Neste momento, acho que ela não merece isso. Porque ela foi embora! Ela deixou-me! Sozinho…

E está sem bateria. Aquelas tecnologias sem as quais não podemos viver… Logo agora. Agora que queria dizer-lhe tantas coisas. Agora que ela vai noutro carro, a rir com outras pessoas para tentar disfarçar a dor. Enquanto eu estou aqui… Sem conseguir explicar a raiva que sinto. A vontade que tenho de voltar atrás, abraçá-la e dar-lhe na cabeça por horas! Vê-la sorrir e reclamar ainda mais. E só parar no momento em que ela me abraçar cheia de lágrimas nos olhos.

Ela segue o seu caminho como se nada fosse. E deixa-me. Deixa-me completamente sozinho. Desamparado. Num sítio que não é meu. Que nos pertenceu em tempos. Que não me faz sentido a mim enquanto pessoa singular. Porque a verdade é que já não sou um só. Eu agora pertenço-lhe…

E ela quando foi… Fogo, quando ela foi levou com ela metade de mim. Mais de metade até. Julgo que todo eu fui com ela. A minha cabeça já não está aqui. Está lá, com ela. Em mim, só tenho o corpo e esse só sabe seguir os movimentos dela.

No final, a verdade é que ela foi embora. Por mais que lhe tenha pedido para ficar, ela foi. E eu não consigo explicar por palavras a dor que sinto, a forma como sinto o coração a ser arrancado aos poucos. Ela foi. E a única lembrança física que tenho dela é uma caneta. Horrível, por sinal. Mas que ela titula como sendo a sua caneta preferida. No final, só me restam as lembranças. O sorriso dela em memória. O cheiro dela. O toque dela. O olhar dela. Caraças, o olhar dela! Que saudades!

Agora só me resta a esperança de voltar a encontrá-la…