Ela e Eu…

Se tudo corresse bem, trocávamos mensagens de dois em dois dias. Preferíamos assim, para que o nosso amor não se asfixiasse. Em cada mensagem trocada, eu contava-lhe os meus dias: o que fiz; por onde andei; e quantas vezes deixei que o nome dela me assaltasse a mente. Anotava-o num papel, em barras verticais: vinte e seis traços, contei eu em apenas um dia. Depois, passados dois dias, ela contava-me os dias dela, só que em vez de anotar de forma obsessiva as vezes que pensava em mim, dizia-o por alto: «umas treze, sei lá eu.».

Ela gostava de um amor desordenado, feito de acasos, onde cada palavra surgisse da apaziguadora vontade de amar. Eu gostava das coisas por inteiro, onde cada momento fosse a certeza de um amanhã. Talvez por isso tenhamos decidido assim, em nos desatarmos por uns dias deste amor ofuscante. Para que não nos desfizéssemos neste promiscuo desalento. Tínhamos as palavras na boca e os sexos na mão. A tua voz quente, silenciosa, a surgir com a intermitente ausência das tuas palavras. Sabíamos o que o amor nos tinha para oferecer, e que caminhos nos devolveriam o misturar dos corpos. Passava a minha mão pelo meu corpo nu, até chegar ao sexo, e a imaginar-me em ti, de olhos fechados, com a vontade dos cinco impérios, com a fome de mil homens, até que me elevasse a um lugar onde te sentiria bem perto. E flor dela brotava entre as penas que a cobriam do frio, até que o desejo desvanecesse num ultimo grito, proclamando todos os pecados da humanidade.


PELA WEB

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